sexta-feira, outubro 08, 2010

Cápitulo 5.

A escola ficava a uma distância considerável da pensão, então fomos obrigados a caminhar pelas ruas lúgubres da nevoenta cidade de Londres, o que não melhorou em nada o meu humor. A cada passo eu me sentia pior e menos confiante. Em pouco tempo nem a presença de Rupert me consolava. Ele tentava, em vão, manter um diálogo, mas eu estava tão nervosa que frustrava todas as suas tentativas.
- Holly, você tem que se acalmar! Não vai ser assim tão ruim... Eu vou estar lá com você... - ele tentou me consolar novamente, acariciando delicadamente o meu braço. Eu inclinei minha cabeça de modo que pudesse fitar seus olhos e sorri.
- Não fique tão aflito Rupert, quando chegarmos eu vou melhorar. Eu juro.
Seu olhar angustiado não cedeu a minha tentativa de mostrar confiança. Era irônico mas agora era eu quem procurava tranquilizá-lo. Eu parei de caminhar e segurei Rupert pelo braço. Apesar da total ausência de força em meu toque, ele parou instantaneamente.
- Eu sei uma coisa que vai me acalmar - eu disse em uma corajosa tentativa de sorrir.
- Ah é? E o que seria? - ele questionou, embora eu jurasse ter visto um brilho de diversão perpassar seu olhar. Com um sorriso no canto dos lábios eu me ergui na ponta dos pés e ele, entendendo rapidamente o que eu queria, inclinou seu rosto para mim. Seus lábios macios tocaram os meus me fazendo esquecer todas as minhas angústias. A única realidade eram as mãos quentes de Rupert em minha cintura, seus lábios perfeitamente sincronizados aos meus, seu perfume que me enchia de boas lembranças de coisas que ainda não aconteceram. Quando o beijo acabou, continuamos abraçados, Rupert com um sorriso exultante e eu com um peso tirado de minha consciência.
Ele se livrou de meu abraço e voltamos a caminhar. A névoa se tornara menos densa e as gotas de chuva começavam a cair do céu esbranquiçado. O enorme complexo da King's High School despontou a nossa frente e o nervosismo voltou a assolar minha mente. Ao entrar nos limites da escola, como eu previra, uma máscara de coragem se instaurou em mim. O meu modo de andar se tornou defensivo, quase desconfiado, uma maneira de impôr distância ensinada por meu pai. Eu ainda lembrava da suz voz grave aconselhando-me em segredo.
- Holly-woo, nunca demonstre fraqueza perante seus inimigos ou medos, pois isso só a tornará mais vulnerável.
Minha mãe não permitia que meu pai participasse efetivamente de minha educação, por isso tudo que aprendi com ele teve que ser ensinado em segredo. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, e depois de sua morte minhas relações familiares entraram em colapso. Meus avós, que sempre preferiram abertamente meus primos a mim, se tornaram ainda mais escrachados depois da morte de meu pai. Minha mãe buscava em relações frágeis e impensadas um modo de superar a sua perda, o que contribuia para que a ruptura que se formara nunca suturasse. Por isso eu não gostava de ter saído dos EUA e ido para a realidade burguesa de Londres. Eu fui obrigada a abandonar o lugar em que eu me sentia de fato em casa, onde lembranças de bons momentos com Bill - meu pai - me assaltavam esporadicamente, por causa das aventuras insólitas de minha mãe. Eu ainda voltaria para o meu lar, mas no momento a King's High School abria seus braços mesquinhos para mim.
- Rupert, qual é a nossa primeira tortura? - perguntei pelo canto da boca enquanto observava com olhos mais críticos do que o habitual a estrutura dos grandes edifícios que nos cercavam. Ele riu suavemente antes de responder.
- Educação Física.
Eu dei de ombros como quem diz "poderia ser pior". E eu viria a descobrir que eu estava redondamente certa. Poderia ser, de fato, muito pior. Uma voz aguda, infantil e incômoda penetrou no parcial silêncio que se instaurara entre mim e Rupert.
- RUP!
Ele fefchou os olhos e suspirou com visível impaciência.
- Ei! Vai continuar me ignorando Rup?
Ele se virou lentamente e um falso sorriso que mais parecia um esgar apareceu em seu rosto, maculando sua beleza angelical.
- Jen - ele saudou a garota educadamente.
Retardada era uma palavra que poderia caracterizar bem aquela criatura que surgiu em nossa frente. Jen, ou sei lá o nome que ela tinha, parecia uma barbie saída de um horrível casamento. Uma longa cortina de cabelos loiros platinados emoldurava um rosto branco e macilento coberto por uma camada mal feita de maquiagem. Para piorar a imagem daquela boneca demoníaca, um vestido branco lhe caía "soltinho" sobre o corpo magro. Definitivamente, a voz repugnante era dos males o menor. Talvez por perceber meu olhar de absoluta reprovação, a garota se dirigiu a mim.
- Olá, quem é você?
- Holly James - respondi secamente. Aquela garota era digna somente de meu desprezo.
- Então, Holly, essa é a Jen, minha... - Rupert começou a nos apresentar formalmente.
- Namorada - ela interrompeu. Eu ergui as sobrancelhas com total descrença.
- Namorada é? Rup? - perguntei no meu melhor tom de sarcásmo.
- Não, nós não somos namorados. Nunca fomos. - ele se defendeu rapidamente.
Eu revirei os olhos e suspirei. Aquela não era uma conversa que eu esperava ter no meu primeiro dia de aula.
- Enfim, não me importa. Qual é a sua graça querida?
- Jennifer Von-Tudor, sou uma descendente direta dos Tudor.
- Direta dos Tudor? Poxa, quantos mil anos tem a sua mãe? - perguntei e sorri ironicamente.
Ela me lançou um olhar que eu supus que fosse uma tentativa de demonstrar desprezo. Eu suspirei e me dirigi a Rupert.
- O que foi isso? - questionei incrédula.

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