quinta-feira, dezembro 30, 2010

Cápitulo 13.

- Sabe - Dean começou a falar enquanto eu acendia um cigarro - eu acho que tem alguma coisa muito errada com o Rupert.
- Como assim?
- Ele não era do jeito que ele agiu ontem. Ele era um bom garoto sabe?
- É, ele não tem sido um bom garoto. Não mesmo.
- Eu sei, e isso está me deixando muito preocupado. E se ele tiver sido possuído? E se ele for um metamorfo e não o Rupert de verdade?
- Mas será que Jack não teria desconfiado?
- Jack já foi um ótimo caçador, mas está velho, isso não se pode negar.
- Bom, então que tal conversarmos com Jack a respeito disso?
- Faremos isso hoje. Mas antes - ele disse caminhando em minha direção e me abraçando pela cintura - você se importaria de ir buscar o me irmãozinho no aeroporto comigo?
- Claro que não, até porque eu não tenho muita escolha - eu respondi rindo e passando meus braços pelo seu pescoço - Qual o nome do seu irmãozinho mesmo?
- Sam. Daí assim que buscarmos ele, nós vamos até a casa do Jack. Está bom pra você?

***

Estar em um aeroporto me lembrava horrivelmente a perda de Vince, e Dean não demorou a perceber que eu estava desconfortável ali.
- O que houve? Você está pálida Holly...
- Ah, nada, não é nada. Você se importa se eu for tomar um café enquanto você espera o seu irmão?
- Não, eu fico aqui. Aliás, quer que eu vá com você?
- Não precisa, eu tenho que pensar um pouco... - eu me aproximei para um beijo rápido antes de sair caminhando dentre a bagunça do aeroporto.
Eu me lembrava de Vince com tanta clareza que ainda não conseguia assimilar a sua morte. Ele me defenderia de Rupert, cuidaria de mim como se eu fosse uma criança, porque era o que ele fazia melhor, cuidar de mim, me afastar de confusão. Meu celular vibrou no bolso da calça despertando-me de meus devaneios.
- Fala.
- Filha? Tá me ouvindo?
- Mãe! Claro que eu to te ouvindo, para de gritar!
- Ah minha filha, eu estava tão preocupada, e estou com tantas saudades! Como você está meu amor?
- Eu to bem mãe. Olha, eu tenho que desligar, mas eu te ligo mais tarde, pode ser?
- Mas por que já vai desligar?
- Depois eu te ligo, beijos e se cuida viu? - eu me despedi apressada ao ver que Dean se aproximava. Um cara alto, com ombros largos e os mesmos olhos de Dean caminhava atrás dele. "Deve ser o Sam" eu pensei.
- Hey eu sou Holly James, muito prazer - eu cumprimentei estendendo a mão quando eles chegaram a minha mesa.
- Sam Winchester - ele respondeu ao apertar minha mão.
- Então querem comer alguma coisa ou a gente já pode ir?
- Por mim podemos ir - eu respondi me levantando.
- É, podemos ir.

***

No carro Dean expôs a situação a Sam em detalhes, como Rupert tinha me tratado de modo estranho no Harvelle's e como eu tinha reagido. Sam não teve nenhum dúvida de que algo estava realmente errado com Rupert ao ouvir meu relato sobre nossa discussão na casa de Jack. Ele confirmou o que Dean tinha dito mais cedo, sobre Rupert ser um bom garoto.
- Espera, você disse que se chamava Holly James certo? - Sam perguntou de repente.
- Ah, sim. Por que?
- Você é a filha do Bill?
- Ah, suponho que sim.
- Dean, não é possível que você seja tão idiota assim.
- Do que você está... Filho da puta! Como eu não pensei nisso?
- Será que alguém pode me explicar o que diabos está acontecendo?
- Papai disse pra tomarmos cuidado e você...
- Tá, já entendi! Não precisa ficar me dando bronca não ok?
- Hey! Calem a boca! Dá pra me explicar o que tá acontecendo? - eu gritei exasperada.
Os dois me olharam assustados, e Sam começou a me explicar. Pelo que eu entendi, tinha alguém caçando filhos de caçadores, e eu estava na lista das presas mais fáceis, já que, supostamente, eu não sabia me defender. "Eles" - quem estava por trás disso - botaram um demônio pra me vigiar: Rupert. Claro que tudo isso eram só hipóteses, talvez Rupert fosse simplesmente um filho da puta.

***

-Já vai! - ouvimos a voz de Lita de dentro da casa. - Olha quem apareceu! Dean Winchester! Meu deus, como você cresceu Sam!
- E aí Lita, a trouxe de volta - Dean disse apontando pra mim.
- Holly, Holly, Holly... Rupert está furioso com você. Nunca vi aquele rapaz desse jeito.
- Bom, sobre isso temos muito coisa pra conversar. Jack está aí? - Sam interviu.
- Sim, está na sala de estar. Podem entrar rapazes.
A casa de Jack estava mais sombria hoje, as janelas todas fechadas, apenas algumas velas esporádicas ao longo do corredor. Dean segurou minha mão quando Rupert desceu a escada e me olhou com uma expressão de desprezo. Ele passou em direção a cozinha se dirigir a nós mais do que um olhar de profunda aversão. Continuamos andando até a porta indicada por Lita como sendo a sala de estar.
- Jack? Os meninos Winchesters estão aqui para vê-lo. - Lita anunciou ranzinza.
- Dean. Sam. Entrem e fechem a porta. Não quero essa velha enxerida escutando nossa conversa.
- Jack, me desculpe mas eu acho importante que a Lita ouça o que temos a dizer - eu argumentei baixinho, no fundo torcendo para que ele não me ouvisse.
- Você chegou Holly. Não tinha te visto por detrás desses dois. Está bem então, mas fechem a porta assim mesmo.
Sam começou a falar, e contou tudo que nós havíamos contado para ele no carro, e toda a história caçada aos filhos de caçadores, a suspeita de que Rupert estaria possuído e tudo o mais. Jack se sentiu ofendido dizendo que obviamente já o havia testado, mas Lita achou bem plausível a nossa história. Só tínhamos uma escolha: Matá-lo antes que ele me matasse. E eu era quem devia fazer isso.

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Capítulo 12.

Por fim Dean me levou para comer alguma coisa em um restaurante de beira de estrada. Uma garçonete quarentona com os cabelos oxigenados presos em um rabo de cavalo veio nos atender mascando um chiclete.
- Então gatinho, o que vai querer? - ela perguntou dirigindo seu "charme" para Dean.
- Só uma cerveja - ele respondeu sorrindo para ela. - E você Holly?
- Um cheeseburguer e uma cerveja, obrigada.
Ela se retirou com um ar antipático, mas não antes de soltar um papel na mesa. Dean pegou o papel com curiosidade e depois de ler soltou uma risada.
- Olha isso! Bernadette 555-43323! Ela me deu o telefone dela! - ele explicou achando graça. Minha expressão se manteve impassível, demonstrando o meu desagrado por aquela velha assanhada estar flertando com o cara que estava me pagando uma bebida.
- Relaxa Holly, não fica com ciúme, ela não me interessa em nada ok? A não ser aquele cabelo loiro macio e sedoso. Sabe como é né, os caras preferem as loiras - ele continuou rindo. Eu dei um soco em seu braço agora rindo com ele. - Que violência!
- O que? Para de ser sensível, foi só um soquinho de nada! - eu exclamei rindo de sua reação.
- Ah, não mesmo! Onde você aprendeu a bater garota? Fala sério!
- Onde você aprendeu a ser tão dramático? - eu respondi e inclinei meu rosto para encarar Dean. Ele me olhava de um jeito estranho, e inclinou seu rosto para o meu. Seus lábios tocaram os meus e nos beijamos até que a garçonete veio entregar as cervejas e o meu sanduíche. Nos afastamos assustados, e ele se distanciou e ficou olhando para o outro lado enquanto eu tentava abrir a minha cerveja. Ao menor esforço que eu fiz para tirar a tampa da garrafa, o vidro estilhaçou em minhas mãos. Eu xinguei em voz baixa e fiquei olhando irritada para a sujeira que eu tinha feito.
- Hey, Bernadette certo? Você pode trazer mais uma cerveja e um pano por favor? - Dean chamou a garçonete sorrindo. - Que coisa hein Holly, é só eu me distrair e você já fica aí quebrando tudo em que põe as suas mãos de Superman...
- Ah, cala a boca - eu respondi rindo.

***

- Sabe, desculpa por aquilo lá dentro ok? - Dean começou quando nós já estávamos dentro do carro.
- Aquilo o que? Ficar flertando com a garçonete? - eu brinquei.
- Não, por... você sabe, ter te beijado e tal...
- Ãhn... Eu... Por que você está pedindo desculpa?
- Ah, pareceu que você ficou incomodada, então...
Eu bufei revirando os olhos. "Como ele pode pensar que eu não gostei?" eu pensei abismada com tal possibilidade.
- Olha Dean, eu não fiquei incomodada, isso é ridiculo! Eu fiquei um pouco embaraçada, porque você se virou e me deixou lá sozinha com a minha garrafa de cerveja quebrada...
Sua risada ecoou pela noite silenciosa e a luz da lua incidiu no vidro do carro de modo a deixar sua expressão quase angelical. Sua mão acariciava gentilmente meu rosto, seus olhos se fechando a medida que ele se aproximava de mim, ainda com o sorriso estampado. Ao menor toque de seus lábios nos meus, meus braços envolveram firmemente seu pescoço, puxando-o para mais perto. Dean se debruçou sobre mim e um rangido agudo denunciou o peso excessivo em cima do banco do carro. Suas mãos percorriam meu corpo e eu, ofegante, tirava sua jaqueta com certa dificuldade. Ele interrompeu nosso beijo tempo suficiente para tirar sua camisa, e em seguida estávamos, novamente, como um só corpo. Ofegante eu tentei me afastar dele um pouco, porque eu sentia que aquele banco não aguentaria muita coisa se continuássemos daquele jeito. Ele, para minha surpresa, se afastou assim que eu mostrei certa relutância.
- O que foi? - ele perguntou com a voz rouca.
- O banco tá rangendo, acho que ele pode quebrar - eu respondi sem graça de interromper por causa disso, mas era de fato algo que estava me preocupando. Ele riu e saindo de cima de mim, pulou para o banco de trás do carro.
- Esse aqui não range, eu juro.
Eu sorri e pulei para o banco de trás, caindo suavemente em seu colo. A excitação momentânea, que me deixara no momento em que nossos lábios se separaram, voltou assim que eu olhei aquele rosto, com um sorriso malicioso, mas ainda assim inocente; como um garotinho que foi pego fazendo algo que não devia por alguém que ele sabia que não iria castigá-lo. Eu me inclinei para beijá-lo novamente, suas mãos agora subindo por minhas costas levantando minha blusa.

***

- Não Lita, não se preocupa, eu volto amanhã a tarde. Eu estou bem. Bom, depois eu te explico, juro que quando chegar você pode me interrogar. Eu estou com... - eu me interrompi pensando se devia dizer com quem eu estava. Dean se ofereceu pra falar com ela com um gesto de cabeça, e eu passei o celular para ele.
- E aí Lita, aqui é o Dean Winchester. Você lembra de mim, certo? Isso, filho do John. Ele está bem, saudável como um cavalo... Então, eu levo a Holly aí amanhã, tá bom? - uma risada breve - Eu cuido dela, pode deixar... Passo aí sim, claro, eu só tenho que buscar o Sammy no aeroporto. Ok, ok, boa noite Lita.
Ele desligou o celular e me puxou para que eu me deitasse com ele na cama do hotel em que acabamos a noite. Eu me desvencilhei rindo, e apontei para a roupa molhada que eu ainda estava usando.
- Calma, eu não posso me deitar com essa roupa molhada. Você quer que eu pegue uma pneumonia?
- Hmmm, boa idéia, tira essa roupa, eu to quentinho aqui - ele respondeu rindo.
Quando eu sai de casa essa noite pensando em tomar alguma coisa pra afogar minhas mágoas, nunca imaginei que terminaria a noite assim: em um hotel barato, com um cara tão lindo e tão suficientemente feliz.

domingo, dezembro 12, 2010

Cápitulo 11.

O vento frio do norte feria minha pele sensível, mas eu não iria parar. As palavras rudes de Rupert - que ainda ecoavam em meus ouvidos - me davam, de certa forma, forças pra continuar. A lembrança do nosso desentendimento me lembrava o porquê da minha súbita vontade de sair da casa que eu acabara de chegar. Por puro orgulho eu me obrigaria a ser a melhor caçadora que o mundo jamais vira, ia fazer todos os que duvidaram de mim engolirem suas palavras venenosas. Eu perguntara a Jack onde eu poderia tomar alguma coisa para me aquecer e ele respondera toscamente que tinha bastante bebida na casa e que não era necessário sair, mas lita - entendendo o desejo implícito em minhas palavras - me deu instruções para chegar a um bar chamado Harvelle's Roadhouse que não ficava longe.
- Muito obrigada Lita, muito obrigada mesmo! - eu agradecera fervorosamente.
- Tá tá, só não volte muito tarde sozinha, essas estradas podem ser perigosas para uma garota frágil como você. - ela dissera enquanto me levava até a porta - Sem ofensas - acrescentando com sua risada aguda.
E agora eu já podia ver as luzes do bar desejando mais do que nunca estar lá dentro. Um carro escuro parou ao meu lado me sobressaltando. "Droga, era só o que me faltava" pensei nervosa.
- Hey, você está indo pra onde? Não quer uma carona? Uma garota bonita assim não deveria andar sozinha por essas estradas... - disse uma voz rouca masculina.
- Eu sei me cuidar, obrigada - eu respondi friamente voltando a caminhar. O carro continuo me acompanhando.
- Ah, para né? Entra aí! - ele disse ligando a luz do carro e abrindo a porta. Eu suspirei me rendendo e entrei no carro. Estava tão quente lá dentro que eu me repreendi por não ter entrado antes. Eu me virei constrangida para ver o rosto do meu "salvador" e meu queixo quase caiu. Um cara com uns 22 anos, com a pele clara e o cabelo castanho, e os olhos verdes intensos me olhava com curiosidade. Seu rosto era de certa forma melífluo e com os traços suaves, mas uma taciturnidade de quem já vira muita coisa balanceava-o deixando o rapaz com uma beleza, de certa forma, exótica.
- Posso te perguntar o seu nome e destino?
- Holly, estou indo pro Harvelle's. E você? - perguntei tentando ser simpática.
- Dean, e por coicidência também esotou indo pra lá - ele disse indicando com a cabeça as luzes ao longe - Mas é um lugar estranho pra uma garota ir sozinha a essa hora. Quer dizer, você vai se encontrar com alguém lá? - acrescentou constrangido.
- Não, não, estou sozinha mesmo... - respondi me divertindo com seu contrangimento.
- Bom, somos dois. - ele disse sorrindo.
Eu retribui o sorriso. A pequena viagem foi curta e silenciosa, mas não foi desagradável. Quando saímos do carro Dean pigarreou e me lançou um olhar para que eu não prosseguisse.
- Eu... será que eu posso te pagar uma bebida?
- Ah... Claro - respondi surpresa com um sorriso tímido.
Caminhamos lado a lado e entramos no bar. Parecia um pouco os salões do velho oeste e uma banda de country tocava desafinada em um canto, mas até que era bem agradável. Nos sentamos no bar e durante a espera por atendimento o silêncio entre nós reinou. Uma garota loira mais ou menos da minha idade veio nos atender depois de uns 5 minutos de uma espera desconfortável.
- Hey hey Winchester, o que eu posso trazer pra você?
- Jo, tudo bem? A Ellen tá aqui?
- Não, ela saiu hoje cedo e ainda não voltou. Por que?
- Eu precisava falar com ela... Mas enquanto isso me traz uma cerveja. O que vai querer Holly?
- Uma dose de conhaque por favor - eu pedi quase sussurrando.
- Conhaque? Wow garota! - Dean comentou rindo assim que a garota foi buscar os nossos pedidos.
- Dean Winchester? Será que estou vendo direito? - exclamou uma voz terrivelmente conhecida. Dean se virou lentamente com uma expressão surpreso no rosto.
- Mayburn? Desgraçado, achei que estava pra lá do atlântico! É claro que sou eu! - Dean respondeu entusiasmado. Eu fiquei virada para o bar calada, constrangida demais para me virar.
- Estava, voltei hoje mesmo! Como está o John? E o Sam?
- Estão bem, estão todos bem. Quer dizer, papai está sumido, mas ele já entrou em contato e disse estar bem. E Jack? Continua ranzinza?
- Mas é claro, ainda mais agora que chegou a filha do Velho Bill.
- A filha do Velho Bill? Com quantos anos ela está?
- Acabou de fazer 18. Eu conheço esse olhar Dean, mas ela não é muito sociável não, vou logo avisando.
- Ah é? Eu discordo, sou bastante sociável. - eu me intrometi me virando para encarar Rupert.
- Holly? O que você faz aqui?
Eu peguei o conhaque no bar e o ergui para lhe mostrar o que eu estava fazendo ali. Dean observava a cena com uma expressão que mesclava admiração e espanto.
- Holly James, hã? - Dean comentou em voz baixa. Eu sorri e voltei minha atenção ao conhaque.
- Qual é garota, você veio até aqui beber conhaque? O que você quer provar com isso? - Rupert insistiu com a voz carregada de desprezo. Eu o ignorei.
- Olha aqui Mayburn, você pode ser meu amigo, conhecer a Holly aqui, e até ter algum problema pessoal com ela, mas ela é minha acompanhante essa noite e eu vou ter que pedir que você pare com essa merda.
- Parabéns Holly, conseguiu semear a discórdia entre dois amigos. - Rupert comentou sarcástico.
- Olha aqui Rupert, não sei o que eu fiz pra merecer todo esse desprezo, mas se você acha que eu vou ficar ouvindo tudo isso calada, você está muito enganado.
- Ah é? E o que você vai fazer? Chorar e se esconder nas saias da sua mãe?
Antes que eu pudesse entender o que eu estava fazendo, meu punho de fechou e atingiu o rosto perfeito de Rupert com uma força quase sobre humana. Ele caiu no chão, desacordado após ter batido a cabeça em uma mesa. Eu virei o copo de conhaque, tirei uma nota de 10 do bolso da jaqueta e coloquei no balcão, me desculpei apressada com Jo pela bagunça e sai rapidamente. Eu já estava fora do bar quando percebi que Dean estava me seguindo.
- Calma, calma. Por que tá correndo?
- Por que? Porque eu acabei de esmurrar o idiota do Rupert em um bar. Por isso eu estou correndo.
- Mas isso foi demais! Sério, onde aprendeu a bater daquele jeito?
- Não sei, foi instinto. - respondi sorrindo pelo canto da boca.
- Então, talvez você queira tomar alguma coisa em algum outro lugar. O céu é o limite.
- Eu até gostaria, mas eu não vou saber voltar pra casa do Jack de eu for mais longe do que isso...
- Eu te levo de volta, eu sei onde os Kimpler moram.
- Então me surpreenda. Me leve num lugar que você ache legal, sei lá... - respondi sorrindo.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Capítulo 10.

Rupert

O sul se punha no horizonte que agora estava bem abaixo de nós, o vôo estava sendo tranquilo, mas eu podia ver a inquietação muda de Holly. Eu tinha que confessar que também não estava tão calmo quanto esperava que transparecesse. Será que Jack ficaria decepcionado com a evidente falta de jeito de Holly? Ela dizia ser boa com armas e tudo mais, mas eu não conseguia ver seus braçõs delicados segurando uma arma.
- Rupert - ela me chamou em um sussurro.
- Diga - respondi me inclinando de modo que pudesse olhar para ela.
- Eu estou com medo.
- Medo?
- Sim, medo de não ser boa, medo de manchar a memória de meu pai, medo de decepcionar pessoas... - ela disse e eu pude ver uma lágrima deslizar pelo seu rosto. Instintivamente levei minhas mãos ao seu rosto para limpar aquela lágrima.
- Para com isso Holly, você é ótima, não precisa se preucupar, você jamais manchará a memória de Bill, onde ele estiver ele está com muito orgulho da filha que você é.
Ela sorriu mas eu pude ver que ela ainda não estava convencida. Eu resolvi deixar ela pensar um pouco, talvez ela desistisse e quisesse voltar para Londres me poupando da humilhação que seria apresentar aquela menina frágil como a filha de Bill James. Eu sabia que era cruel pensar dessa maneira, mas era a verdade: enquanto ela não tivesse provado ser mesmo boa, eu não ia querer ela como minha parceira. Um peso morto era tudo que eu não precisava.
E tinha outra coisa que me preucupava. O que Ruby ia querer em troca de salvar minha vida? Eu detestava tratar com demônios, nunca era vantajoso para mim. "Jack vai saber o que fazer" pensei com firmeza. A voz da aeromoça anunciou o momento do pouso, chegou a hora.

-----------

Holly

Era agora, eu ia conhecer Jack, Lita e toda uma nova vida. Eu estava começando a me desesperar, eu estava a beira das lágrimas na verdade. Rupert esteve distante durante a viagem, e eu estava começando a achar que ele também não estava confiante em relação a mim. "Não seja boba, Rupert jamais perderia a fé em você" eu me repreendi. Eu respirei fundo e esperei o avião pousar com os olhos fechados.
- Vamos Holly, temos que descer - Rupert disse formalmente apontando para o bagageiro a cima de nós.
- Ok - respondi distraída.
Nós pegamos as malas do bagageiro e descemos do avião. Ao sair pelo portão de desembarque, eu logo vi um homem de mais ou menos 50 anos, meio calvo, com uma expressão forte no rosto, apoiado em uma begala trabalhada. Era Jack, isso estava óbvio. Mas quem era a garota loira ao seu lado? Rupert dissera que Lita era a irmã mais velha de Jack, e a garota devia ter a minha idade, apesar de ter cara de que já conhecera muitas coisas.
- Rupert - tentei chamá-lo discretamente - quem é ela?
Ele não me respondeu logo, percebi que ele estava tão surpreso quanto eu a respeito da presença da garota.
- Ruby. - ele disse mais para si mesmo. - Ruby - ele disse mais alto, agora de dirigindo à garota.
- E aí Mayburn, sentiu minha falta? - a garota, Ruby, disse em um tom irônico sorrindo. Rupert riu um pouco, mas a ignorou.
- Jack - ele disse aliviado e abraçou o velho.
- Olá moleque - disse Jack com uma voz rasgada, retribuindo o abraço.
- Jack, Ruby, essa é a Holly James - ele nos apresentou sem nem dirigir o olhar para mim.
- Oi - eu disse timidamente. Ruby se aproximou rapidamente e me deu um abraço caloroso.
- Olá querida, eu sou Ruby. Senti muitíssimo quando seu pai se foi, ele faz muita falta ao mundo.
- Ah, prazer, Holly. Ah... É, ele faz falta... - respondi ainda constrangida demais para falar algo concreto.
- Você não faz idéia garota, Bill foi um grande homem - Jack concordou com Ruby em sua voz ressonante. - Jack Kimpler - ele acrescentou estendendo a mão para mim. Eu apertei sua mão e balbuciei meu nome novamente.
- Onde está Lita, Jack? - Rupert perguntou aliviando meu constrangimento.
- Ficou em casa, aquela velha ranzinza. - Jack resmungou em resposta. - Aqui não é o melhor lugar para conversarmos, que tal pegarem suas malas e andarem rápido?
Nós assentimos e caminhamos para pegar nossas malas. Rupert não trocou nem uma palavra comigo durante o percurso. Eu estava ficando tão magoada que o nervosismo estava quase ficando em segundo plano. Quase.

--------

A casa de Jack ficava em um terreno na periferia da cidade. Era grande e espaçosa para quem via de fora, e por dentro podia se ver que cada espaço, que outrora estivera vazio, fora preenchido. Eu podia ver grandes desenhos nas paredes, passagens bíblicas pintadas e espostas no teto - como em uma igreja -, livros grossos e de aparência antiga apinhavam as estantes de madeira escura que estavam presentes em praticamente todos os lugares da casa. Era definitivamente a casa de um estudioso do mundo sobrenatural.
Rupert conversava animado com Ruby, e eu percebi com uma pontada de incômodo que eu estava com ciúme. Jack mancava a frente me guiando, até que parou em uma porta que estava fechada. Ele bateu toscamente e uma voz penetrante gritou algo ininteligível em resposta. Jack se virou para mim e murmurou em tom de conspiração.
- Não ligue para os comentários infelizes dessa velha está bem garota? Ela ladra mas no fundo é só uma mulher ranzinza.
Eu sorri e apenas concordei com a cabeça. A porta se abriu e uma mulher apareceu no vão. o meu primeiro pensamento quando a vi, foi que eu gostaria de estar conservada como ela quando chegasse a sua idade. Ela tinha os braços bem delineados por musculos compridos que estava presentes em todas as partes que estavam a mostra de seu corpo. Uma juba cor de palha envolvia um rosto já maculado por linhas fortes de expressão, e seus olhos duros estavam envoltos por cílios com uma camada grossa de rímel preto. Ela me avaliava com interesse e sem nenhuma cerimônia.
- Você é a garota James então. - não era uma pergunta, e a semelhança da voz de Lita com a do irmão me assustou um pouco.
- Holly James, muito prazer - me apresentei estendendo a mão. Ela apertou minha mãe com suas mãos de ferro.
- Lita Kimpler, o prazer é todo meu. Eu espero, pelo menos. - ela respondeu e sua risada ecoou pela casa vazia.
- Ok Lita, agora saia do meu caminho, minhas pernas estão me matando.
- Ah, seu velho rabugento, só sabe reclamar - a mulher retrucou friamente. - E vejo que essa demoniazinha imunda voltou a nossa casa não é?
- Ah mulher, cale-se. Já te expliquei a situação da nossa Ruby aqui, pode parar de implicar com ela?
- Vai Jack, defende ela, traga essas criaturas peçonhentas a nossa casa. Vai convidá-la para morar conosco para sempre agora é?
- Olha Lita - Ruby interviu antes que Jack pudesse responder - agora que Rupert chegou, não vai demorar muito e você vai estar livre de mim.
Lita só lançou um olhar de profundo desprezo a Ruby e voltou para o fogão. Eu percebi depois de um tempo que estávamos em uma cozinha.
- Moleque, mostre a casa para Holly. Faça algo de útil ao invés de só ficar aí se exibindo feito um pavão para Ruby. - Jack disse imperativamente a Rupert.
- Vamos - ele murmurou ao passar por mim.
- Podem deixar as malas aqui embaixo, depois a gente leva lá pra cima - Jack acrescentou por cima do ombro.
Rupert caminhava rapidamente pelos corredores, e eu tinha que quase correr para acompanhar seu passo. Ele subiu a escada que ficava perto da porta de entrada rapidamente e se dirigiu a um quarto no fim do corredor, aparentemente trancado.
- Esse é o quarto em que ninguém entra a menos que estaja acompanhado de Jack. Esse - e apontou para um quarto com a porta entreaberta a nossa esquerda - é o quarto que você vai ficar. Agora, suponha que estaja cansada, eu vou te dar um pouco de privacidade.
- Não. Eu quero conversar com você. - eu disse com firmeza. Ele suspirou com impaciência me lembrando o tratamento que ele dava a Jen, a garota burra da King's High School.
- Sobre o que você quer conversar?
- Por que você está agindo assim comigo?
- Sinceramente?
- Não, minta pra mim. Claro que sinceramente né.
- Eu cansei de você Holly, você e as suas bipolaridades, suas hipocrisisas, e suas fraquezas. Suas lamentações eternas sobre a sua "vida horrível". É isso. Minha obrigação era te trazer até Jack, agora você é o encargo dele. Agora se me dá licença, eu tenho negócio a tratar com a Ruby.
- Com um demônio? Eu achei que nós matassemos demônios.
- Você achou? Pois eu tenho uma novidade pra você garota, você não sabe de nada. Você é uma pessoa extremamente inútil no momento, e enquanto não aprender o que Jack tem a ensinar vai ser só um peso morto na equipe. Ruby, para seu conhecimento posterior, é importante para o que nós pretendemos fazer.
Suas palavras me machucaram de tal forma, que a única coisa que eu consegui fazer foi me virar com a maior dignidade que consegui reunir e entrar no quarto que ele havia me indicado. Eu não acreditava, ele me enganara. Não estava comigo em Londers porque gostava de mim, mas porque precisava me trazer para Jack. E ele sabia que eu jamais viria sozinha. Eu me senti traída, magoada, mas acima de tudo, ultrajada pela maneira com que Rupert falou comigo. Feriu-me tão fortemente ouví-lo, principalmente por saber que tudo aquilo era verdade.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Cápitulo 9.

O aeroporto estava apinhado de gente, mas chovia forte demais para que ficássemos fora dali. O vôo de Vince deveria ter chegado há cerca de uma hora. Meg voltava do guichê quando a voz insossa da mulher do aeroporto anunciou o que eu temia.
- O vôo WXZ 3748 teve complicações na pista de pouso. Recomendamos que os parentes dos passageiros de encaminhem ao portão de desembarque para facilitar o socorro.
A frieza na noticía me deu ainda mais raiva. Meus olhos marejados de lágrimas saíram de foco e os braços de Rupert me segurando com firmeza foram a última coisa que senti antes de mergulhar em uma escuridão angustiada.

---------

Rupert

- Holly vai ficar arrazada Meg, eu nem vou saber como dar a notícia.
- Rupert, eu te imploro fale com ela. Se ela me ver nesse estado...
- Está bem, mas espere pelo menos até que ela acorde. Na verdade, ela já deve suspeitar... - Meg se desmanchou em lágrimas novamente e eu ofereci meu abraço para confortá-la.
O avião de Vince caíra na pista de pouso e, misteriosamente, Vince e o piloto foram as únicas vítimas fatais. Eu iria conversar com Jack o mais rápido que pudesse. Não podia ser conincidência que num avião de 78 passageiros só 2 morressem, e justo esse dois. Mas agora eu tinha que falar com Holly, que como era muito apegada ao irmão, provavelmente entraria em pânico.
A porta do quarto dela se abriu e ela saiu com uma cara apática esfregando os olhos sonolenta.
- Mãe? O que houve? - ele perguntou se assustando com a situação. Meg lançou-me um último olhar suplicante antes de se retirar sem dizer nada.
- Rupert, o que está acontecendo? - ela tentou novamente.
- Bom... Qual foi a última coisa que você ouviu Holly? - comecei lentamente.
- Algo sobre... - ela se interrompeu e o choque tomou o lugar da apatia em seu rosto, sendo substituído pela compreensão, e então o que eu temia aconteceu: a dor acometeu seu lindo rosto e as lágrimas dela pareciam não ter fim. Ela se jogou em meus braços soluçante.
- Não... Isso não pode ter acontecido... Não com o meu Vince... - ela murmurava com o rosto enterrado em minha jaqueta já úmida. Eu a abraçava forte para tentar lhe mostrar que ela não estava sozinha, que eu estaria com ela sempre que ela precisasse.

-----------------

Holly

Meu mundo parecia estar desabando. Vince se fora, eu jamais teria alguém para confiar, alguém para conversar, alguém como ele. Eu sentia como se um pedaço de mim estivesse me deixando. Eu não podia acreditar, Vince morrera há menos de 5 horas, e eu já me sentia infeliz de uma maneira que eu não sabia explicar. Ele sempre fora meu amigo, meu irmão, meu confidente. Acho inclusive, que se eu não tivesse Rupert, eu me mataria de tanto desgosto.
- Holly, eu sei que é um momento terrível pra você, mas nós temos que conversar. - Rupert disse entrando no quarto após ter saído para falar com Jack no telefone.
- O que é?
- Jack tem suposições interessantes e bastante plausíveis sobre a morte do seu irmão.
- Suposições? O que? Ele morreu num acidente aéreo, quais são as possibilidades?
- A queda não poderia tê-lo matado. Jack acha que ele foi morto dentro do avião. E o piloto também, por isso o acidente.
Eu o fitava atônita, como assim? Assassinato? Teria algo a ver com a morte do meu pai? Definitivamente, eu precisava visitar o tal Jack, eu precisava de respostas.
- Rupert, nós precisamos ir pro Kansas. Eu não aguento mais esses segredos, eu preciso de respostas! - e antes que eu me desse conta, eu já estava gritando desesperada, as lágrimas de volta em meus olhos.
- Eu concordo Holly, mas procure se manter calma. Temos que esperar o seu aniversário. Mas não fique exasperada - ele acrescentou ao me ver tentar argumentar - só faltam 3 dias.
Eu suspirei vencida. Só 3 dias e eu estaria livre. Um cansaço profundo se abateu sobre mim, e eu pedi - um pouco bruscamente, confesso - que Rupert me desse um pouco de privacidade, pois eu estava exausta. Eu dormi quase instantaneamente, e quando acordei no dia seguinte, a densa realidade da morte de Vince caiu sobre mim. Eu teria que superar, se não acabaria enlouquecendo. E a melhor maneira de superar seria agir. Eu tentei me recompor antes de sair do quarto, para que não parecesse que eu passei a noite chorando - o que de fato aconteceu - e piorasse ainda mais o clima.
Encontrei minha mãe em seu quarto, sentada na cama ao telefone. Eu fiquei constrangida de vir falar com ela em busca de concelhos depois de ter sido tão grossa com ela, mas eu não tinha escolha. Eu bati na porta hesitante. Minha mãe levantou o olhar e murmurou uma desculpa apressada para desligar o telefone, fazendo sinal para que eu me aproximasse.
- Entre, entre querida. - ela disse com a voz ainda embargada. Eu entrei no quarto e me sentei ao seu lado na cama.
- Com quem você estava falando?
- Querida, eu sinto muito por...
- Eu não quero falar sobre isso. Com quem você estava falando mamãe? - tentei novamente ficando impaciente.
- Com seus avós. Mamãe acha que devemos fazer uma super festa para comemorar o seu aniversário. Mas na atual situação não acho que seja apropriado, e era disso que eu estava tentando convencê-la.
- Pois eu discordo. Provavelmente, Vince adoraria uma big festa para comemorar a minha entrada na maioridade. E é tudo o que eu preciso pra me distrair dos fatos melancólicos que nos cercam.
- Você tem certeza? - ela perguntou surpresa.
- Sim. - respondi simplesmente.
- Falando em certezas, você vai mesmo embora Holly? - ela perguntou em um sussurro. Eu suspirei lentamente antes de responder.
- Vou, na manhã seguinte ao meu aniversário estarei pegando o primeiro vôo para os Estados Unidos.
Ela assentiu em silêncio. Eu fiquei indecisa se deveria perguntar sobre meu pai a ela nesse momento dificil, mas a indecisão sumiu assim que olhei para o porta retratos no criado mudo e vi uma foto deles dois abraçados.
- Mãe, o que você sabia sobre a vida do meu pai quando se casaram?
- Sinceramente? Muito pouco. Eu sabia sobre seu... "trabalho" é claro, porque eu o conheci durante uma de suas caçadas. - ela respondeu - Ele me salvou - ela acrescentou fechando os olhos, e eu pude ver uma lágrima perolada rolar pelo seu rosto. Instintivamente meus braços a envolveram em uma abraço que eu esperava que a reconfortasse.
- Ele me salvou duas vezes, e ambas lhe causaram algum mal. Uma delas tirou sua vida, como você bem sabe.
- Eu preciso salvar pessoas também mãe, mesmo que isso me custe a vida. É um trabalho espinhoso, mas que deve ser feito. Eu não quero sair nessa empreitada sabendo que você está brava comigo, ou algo assim.
- Então eu te dou a minha benção Holly. Vá e faça o que tiver que ser feito, salve pessoas, siga a estrada de seu pai, e que as estrelas zelem pelo seu caminho¹.

-----------------

A festa estava escandalosa e antiquada, como eu previ. Meus avós eram senhores conservadores e chatos que achavam que a adolescência era uma farsa, e que eu estava, na verdade, saindo da infância. Balões rosa e um bolo gigante das meninas super poderosas enfeitavam a mesa na sala de jantar. Eu só não tinha vomitado até agora, porque eu havia prometido pra minha mãe que eu me comportaria.
- Hey Holly, feliz 18 anos - uma voz rouca suave soou em meu ouvido. Rupert chegara, finalmente. Eu me virei e pulei em seu colo, e disse pountuando cada palavra com um beijo em sua bochecha:
- Rupert! Você veio! Eu estou tão feliz por ter alguém são nessa festa horrorosa! - ele ria delicadamente desvencilhando-se de meus braços.
- Claro que eu vim. Eu já botei suas malas no carro. Comprei as passagens e tudo está resolvido. Nós partimos amanhã bem cedo. Está bom pra você Holly? - ele perguntou sorrindo.
- É claro! Está ótimo!
- Está bem humorada pra quem está em uma festa com um bolo das meninas super poderosas hein? - eu revirei os olhos e o ignorei. Agora nem a tristeza da perda de Vince poderia me deixar mal. Tudo estava indo perfeitamente bem. Nós partiríamos e eu seguiria, afinal, o meu destino.

----------

¹ Expressão que faz parte da saga "A Herança". N.A.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Cápitulo 8.

- Seu pai? Você nunca fala nada sobre ele - ele contestou surpreso.
- Eu sei, mas essa noite eu sonhei com ele, e percebi que já não sou mais capaz de manter todos os meus segredos sozinha. Eu vou acabar enlouquecendo.
- Bom, então pode me contar. Eu juro que essa conversa jamais sairá daqui.
Eu deixei que as palavras fluíssem da minha boca distraídamente, pois eu sabia que se eu me desse conta de fato do que eu estava falando, eu provavelmente não continuaria, ou editaria alguma coisa. Eu contei tudo sobre Bill para ele. Contei sobre as caçadas, contei sobre os treinamentos, sobre sua morte e sobre a missão que ele me incumbira. Rupert ouvia tudo calado, com uma expressão impassível no rosto. Quando eu terminei, ele apenas disse.
- Eu já sabia.
- O que? O que você já sabia? - perguntei incrédula, minha voz subindo algumas oitavas devido a enorme surpresa.
- Eu já sabia tudo isso sobre o seu pai. Ele é muito conhecido entre os caçadores, o velho Bill.
- Entre os caçadores? Rupert, o que você sabe sobre caçadores? - eu não coneguia acreditar, ele conhecia a verdade, ele me ajudaria, não sentiria nojo de mim ou nada parecido.
- Eu sou um caçador Holly. Fui treinado praticamente a minha vida inteira. Eu fico surpreso que você também tenha sido. A informação que eu tinha era que o velho Bill escondeu da família seu segredo até o fim de sua vida.
- Bom, na verdade não. Ele me contou quando eu tinha 6 anos. Mas você chegou a conhecê-lo? Quem te treinou? Por que você não me contou nada antes? Você já sabia sobre o meu pai? - as perguntas saiam desenfreadas por meus lábios. Durante as horas seguintes, Rupert me contou tudo sobre a sua vida como caçador.
Ele fora treinado por dois caçadores - que foram amigos de meu pai - Jack e Lita. Seu pai, Carl Mayburn - também caçador - foi morto por um trickster quando ele era apenas um garoto, 7 anos de acordo com suas memórias. Ele conheceu meu pai de relance em um bar frequentado por caçadores, o Harvelle's RoadHouse, e foi instruído por Jack a não comentar nada comigo sobre meu pai. A surpresa logo deu lugar a segurança, agora eu sabia que eu não estava sozinha. Agora eu sabia que quando chegasse a hora de agir, Rupert estaria comigo.

-----------

A lua já irradiava sua luz branca sobre a cidade de Londres, a neve caia fraca pelas ruas sombrias. Eu já estava no meu quarto na pensão, com a companhia quase eterna de Rupert. As descobertas da tarde, tinham nos levado a pensar sobre um futuro inelutável que já não estava mais tão distante, já que o meu aniversário de 18 anos ia acontecer em 10 dias.
- Assim que eu atingir a maioridade nós compramos nossas passagens para os EUA, para que eu possa aprender ainda mais coisas com Jack. Assim eu serei perfeitamente capaz de seguir a vida do meu pai, selando assim o meu destino. É isso né? - repassei o plano que nós elaboramos durante a tarde.
- Exato. Eu liguei para Jack hoje mais cedo, e ele disse que ficará encantado em nos receber.
- Duvido que ele tenha dito que ficaria encantado em nos receber - retruquei me lembrando dos comentários do Rupert sobre o gênio difícil de Jack.
- Ok, ele disse algo como "Antes tarde do que nunca hein moleque" - ele respondeu imitando Jack. Eu ria de sua brincadeira, quando eu senti a atmosfera do quarto mudando sutilmente. Rupert se inclinou em minha direção, seus olhos fixos nos meus, seu sorriso estonteante. Entendendo sua intenção, eu o censurei com um aceno de cabeça.
- Rup... - comecei constrangida, mas seus lábios encostaram nos meus me impedindo de continuar. Eu virei o rosto, e tive medo de tornar a olhar para ele, pois sabia que o desapontamento desfigurava o rosto impecável de Rupert, deixando-o vulnerável como uma criança.
- Por favor Rupert, nós já conversamos sobre isso.
- Mas eu não entendo o que o fato de nós decidirmos trabalhar juntos interfere na nossa relação.
- Ah, fala sério... - resmunguei revirando os olhos - Será que eu já não te dei razões o suficiente? Você realmente quer abordar esse assunto de novo? Que coisa maçante man.
Ele suspirou mas não retrucou. Eu detestava fazer aquilo com ele. E depois de tantos dias, era estranho não tratá-lo mais como namorado. Mas apesar dele fingir não entender, nós havíamos entrado em um acordo quando decidimos ser parceiros nesse lance de caçadores. Nossa relação ia ser fraternal, e não conjugal - apesar do termo ser absurdamente exagerado .
- Ok, desculpa Holly, foi mal. É sério, eu entendi o que você disse hoje mais cedo, e concordo. Não vou mais fazer isso ok?
Eu o abracei sem responder. Será que em algum lugar do planeta poderia existir um cara mais perfeito que Rupert? Eu duvidava muito. A porta se abriu nos sobressaltando.
- E eu posso saber o que a minha filhinha ficou fazendo a tarde inteira fechada nesse quarto? - minha mãe entrou de costas carregando uma bandeja cheia de frutas. Ela insistia em cuidar da minha alimentação, coisa que eu não reclamava, pois sabia que ele estava certa. Se ninguém cuidasse daquilo pra mim, eu viveria a base de junk foods. Ao se virar e ver Rupert, seu sorriso sumiu.
- Ah, olá Rupert, você está aqui. - ela disse friamente.
- Ãhn... Olá sra. James. Holly eu vou indo, amanhã a gente se vê ok? - ele disse se levantando - Qualquer coisa me liga - acrescentou com um sorriso.
- Claro, ligarei - respondi rindo. Rupert saiu do quarto caminhando rápido, fechando a porta ao passar. A expressão de censura era forte em meu rosto.
- Por que você falou com ele assim mãe?
- Por que? Você ainda tem coragem de perguntar? Desde que chegamos aqui você só fica com esse menino, não dá mais atenção pra sua velha mãe.
- Ah, fala sério mãe. Você espera que eu fique conversando com você sobre a escola? Daqui a 10 dias eu estarei indo embora. Vá se acostumando.
- O que você quer dizer com isso mocinha? Vai embora? Pra onde? Com quem? Com que dinheiro hein?
Eu fechei meus olhos, respirando fundo e contando a té dez devagar. Como meu pai aguentou a minha mãe por 20 anos eu não sabia, eu não a aguentava convivendo com ela por 17!
- Eu vou voltar pros Estados Unidos, com Rupert, nós vamos atrás de um cara chamado Jack que vai concluir meu "treinamento" para que eu possa seguir a minha vida. E meu pai deixou dinheiro pra mim, que vai estar disponível somente para mim no momento que eu fizer 18 anos.
- Você não vai embora Holly. Eu não vou permitir. Eu não vou permitir! - minha mãe disse, as veias de sua testa tão pronunciadas que eu achei iam explodir. Ela saiu do quarto deixando a bandeja de frutas caída perto da porta. Eu desabei na cama, e ignorando a forte rebeldia que se instaurava em meu peito, eu fechei os olhos e dormi.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Capítulo 7.

A luz do sol incidia fracamente no vidro sujo da cozinha. Bill estava curvado sobre a maleta preta com fechos prateados que permanecera fechada por anos. Eu me aproximei hesitante.
- Papai? - perguntei timidamente.
- Sim querida - ele respondeu distraído, fechando a maleta rapidamente.
- O que tem nessa maleta?
- Nada de interessante para a minha pequena, só uns documentos.
- Papai? - tentei novamente. Meu pai suspirou ao se sentar em uma das cadeiras que circundavam a mesa, e fez sinal para que eu me aproximasse. Eu caminhei em sua direção e sentei em seu colo.
- Diga o que te aflige Holly-woo.
- Estou preocupada papai.
- Preocupada? - ele perguntou surpreso erguendo as sobrancelhas - Com o que pequenina?
- com você papai. Você não tem mais ensinado a mim e ao Vince. Você prometeu que ia nos ensinar. E você tem ido caçar e demora muito para voltar! – conclui, meus lábios inferiores formando um biquinho. Seu olhar entristeceu e ele parecia, de repente, apenas um senhor infeliz.
- Eu acho que você precisa saber, já está grandinha o suficiente para entender.
Eu esperei, ansiosa para descobrir o que estava acontecendo.
- Sua mãe está muito doente Holly-woo, e eu preciso ajudá-la. Você sabe que eu faria tudo por vocês.
Um barulho agudo interrompeu Bill, chamando a minha atenção. O som se assemelhava fracamente a um lamento infantil, mas era infinitamente mais incômodo, quase obsceno. Uma gargalhada fria escapou dos lábios de Bill e de seus olhos vazava, como de um farol, uma luz vermelha que me cegava. Os lamentos se tornavam mais pronunciados, a porta tremia como se uma turba enraivecida se aproximasse. A risada maquiavélica de Bill logo foi abafada, pois a porta rangia alucinadamente. As lágrimas caiam em cascata de meus olhos, mas o pânico me deixava muda. Com um barulho ensurdecedor a porta de abriu. Corpos retorcidos que exalavam o terrível cheiro adocicado da decomposição entravam na cozinha, o choro agonizante penetrava em meus ouvidos.
Eu chorava desesperadamente e subia na mesa para que não me alcançassem. Bill continuava rindo bobamente sentado na cadeira, o mar de corpos o engolindo devagar. Com a visão embaçada pelas lágrimas, não pude ver Bill pela última vez antes que ele ficasse totalmente imerso.

- Pai! – acordei gritando. Meus cabelos estavam grudados na minha testa úmida de suor. Puxei minhas pernas para perto e as abracei, ficando sentada na cama, mergulhada em um choro silencioso.
Bill foi o melhor pai que eu poderia ter. Eu era muito jovem quando ele morreu, mas tudo o que aprendi com ele, era o que me fortificava nos momentos de fraqueza ou insegurança. Ele nos treinava – a mim e ao Vince – todos os dias, porque ele queria que quando ele se fosse, nós o substituíssemos. Meu pai era um caçador, mas não do tipo que caça lebres ou raposas. Ele caçava demônios, criaturas sobrenaturais que assombravam silenciosamente as cidades.
Eu tinha 6 anos quando ele me contou sobre sua vida. Como eu era só uma criança, eu achei o máximo, mas hoje eu sei que não é nem de longe tão divertido quanto parecia. Minha mãe queria que eu esperasse chegar a maioridade para seguir a vida que fora escolhida para mim. A princípio, eu concordei com seus termos, mas a adolescência se arrastava vagarosamente pela minha vida, com suas dúvidas e incertezas inserindo-se a força em minha mente. Tudo parecia tão lento que quase me escapara o fato da adolescência ser só uma fase.
Meu aniversário se aproximava, e com ele ressurgiam as perguntas. O que eu deveria fazer quando chegasse a hora de agir? Eu não pegava em uma arma desde os 12 anos, não sabia se conseguiria atirar tão bem quantos antes. Eu precisava desabafar com alguém imparcial, não era mais capaz de ruminar esses pensamentos sozinha. O primeiro nome que me veio a mente foi Rupert. Mas será que eu conseguiria confiar meus segredos mais profundos a ele, sabendo que ele não confiava totalmente em mim?
-------
O refeitório estava lotado, como sempre, e logo foi se tornando insuportável ficar ali.
- Vamos Rup, lá fora com certeza está bem melhor – resmunguei novamente, mesmo sabendo que ele não iria me escutar. Linda Lavingston acabara de irromper pelo vão da porta, com seus longos cabelos esvoaçando cinematograficamente, e Rupert – como todos os garotos da escola – sempre entrava em uma espécie de transe na presença dela.
- Hey Mayburn – tentei novamente estalando os dedos na frente de seus olhos vidrados. Ao ouvir seu sobrenome, Rupert pareceu despertar.
- Ãhn... Ah! Desculpe Holly, eu estava...
- Enfeitiçado, sei – completei rindo – Acho que descobri a palavra que te faz acordar. Mayburn é um bom nome, combina com você.
Sua expressão me fez rir mais. Ele revirava os olhos teatralmente e fazia cara de tédio. Ainda rindo eu o puxei pela manga da camisa para fora do refeitório.
A brisa saudou-nos gentilmente acariciando a nossa pele, aliviando o calor infernal do interior da escola. Rupert me esperava com curiosidade. Eu decidi contar sobre o meu pai, mas não sabia exatamente como fazê-lo.
- Rup, eu não sei como começar – eu disse hesitante, despedaçando o copo descartável que estava em minhas mãos.
- Hmm... Você me disse ontem que era um segredo muito... “Secreto” – ele disse fazendo grandes aspas no ar ao dizer Secreto, me fazendo rir.
- Sim, bem secreto – concordei me sentando à sombra de uma árvore florida que ficava entre o lago artificial e o ginásio coberto da King’s High School.
- Sobre o que? Você? Vince? Meg?
- Meu pai.

quarta-feira, outubro 20, 2010

Post Esclarecendo a Demora do 7º Cap.

Eu estou com o pulso fudido, não consigo digitar muito. E eu estou com bloqueio criativo ~chora~ kekeke, mas assim que eu estiver bem do pulso eu posto vários caps *-* Fim. q

domingo, outubro 10, 2010

Cápitulo 6.

Continuação do Cap.2 narração de Rupert.

- Não Jack, não era um bom momento. - eu respondi agressivo.
- Olha aqui moleque, eu atravesso o atlântico com a melhor pista sobre ela que você poderia encontrar e você vem me dizer que não era um bom momento? Você só pode estar brincando.
- Ok cara, mas você sabe com quem eu estava?
- Quem? - Jack questionou ironicamente com a expressão descrente que tanto me incomodava.
- Holly James! - respondi dando um tapa mais forte do que eu planejei na mesa de plástico do bar. Uns caras que jogavam sinuca se viraram para nos encarar e o barman congelou na ato de limpar um copo. Constrangido, eu continuei sussurrando - Holly James, Jack! A filha do Bill James!
- Você tem certeza que essa Holly é a filha do velho Bill? - ele perguntou, agora cauteloso.
- Sim.
Jack ficou calado por um tempo, com o olhar perdido. Tudo o que eu sabia sobre o velho Bill era que ele tinha sido um dos melhores caçadores de todos, e que morrera por conta de um acordo com Azazel, lhe consedendo sua alma em troca da cura de sua mulher, Meg James.
- Você precisa de aproximar dessa garota, moleque - Jack disse finalmente.
- O que? Mas... Por que?
- Precisamos treiná-la. Quando ela souber quem causou a morte de seu pai, ela vai querer vingança.
- Quem causou a morte? Não foi um acordo com o Azazel? - perguntei confuso.
- Essa é uma história pra outro momento, moleque. - Jack respondeu evasivo se levantando manco da cadeira. - Precisamos agir, vamos moleque.
Apesar de contrariado eu me levantei e o segui. Mesmo sendo um cara de difícil convivência, Jack tinha uma mente brilhante. Ele era tão brilhante que mesmo não tendo mais o movimento perfeito das pernas, ele continuava sendo um ótimo caçador.
Jack não se envolvia, fisicamente, em uma caçada desde que ele e Lita - sua irmã - tiveram certeza que eu estava apto a seguir sozinho. Eu caçava sozinho a 2 anos, mas já vinha assessorando Jack à um bom tempo. A minha primeira caçada foi extremamente excitante, eu voltei para a casa de Jack com os nervos à flor da pele. A sensação de livrar pessoas de um mau que elas desconhecem compensava qualquer perigo.
Glory não aprovava a vida que eu levava, mas ela não podia tentar me afastar pois eu estava lutando por um bem maior, e eu ainda não vingara a morte de meu pai, Carl, já que o maldito Trickster estava vivo. Dizem que só se tornam caçadores aqueles que querem vingar a morte de algum familiar próximo, o que infelizmente, se provara verdade para mim.
Assim que entramos no carro Jack começou a falar.
- Moleque, o que vem pra você hoje não é nada fácil. Mas você não terá que procurar nada, basta ir ao lgar certo e se manter concentrado.
Eu suspirei. Como eu iria me manter concentrado sabendo que hell hounds estariam cercando o tal lugar?
- hell hounds certo? - chequei, já sabendo a resposta.
- Certo. hell hounds no perímetro externo e uma guarda de médio porte de demônios ao redor da fortaleza.
Eu refleti por um tempo, pensando que seria uma grande sorte se eu sobrevivesse aos hell hounds.
- Que arma você me sugere?
- Uma de cano curto. É o suficiente. Talvez uma besta com dardos com ponta de sal.
Eu assenti pensando no quanto a besta atrapalharia a minha agilidade.
- Acho que só uma cano curto, e talvez um pistola silenciadora¹ com balas de sal.
- Rupert - ele disse me olhando com uma ternura quase paternal - é olhando pra você hoje, que eu vejo o quanto valeu a pena ter te acolhido - eu sorri constrangido, em dúvida se ele dissera aquilo porque eu propusera uma arma mais leve e ainda assim igualmente silenciosa quanto a besta, ou porque eu ainda não estava em pânico mesmo estando prestes a enfrentar o que ele passara a vida fugindo.
- Então é a hora. Vai moleque, termina com isso logo. Pegue o que precisar no porta-malas e vá ao lugar que nós falamos. Tem um carro pra você logo ali trás.
Eu saí do carro com minha velha mochila pendurada em meu ombro. Caminhei até o porta-malas, e tirei de lá meu revólver, que eu mesmo construira aos 14 anos. A pistola silenciadora e a munição já estavam na minha mochila quando dei as costas ao carro velho de Jack.
"Só alguns cachorros idiotas e uns demônios pra finalizar. Depois é só pegar a faca do vadia da Ruby e tudo fica bem." pensei enquanto me diriga a um carro que Jack indicara.

-------------------

A presença dos hell hounds se tornava mais clara a cada minuto. O ar já estava impregnado com o cheiro nojento da decomposição que exalava dos animais. Eu peguei meu revólver e conferi a munição. Parei o carro em um lugar na estrada onde seria impossível alguém vê-lo. Eu desci do carro com o revolver na mão, e a pistola já com munição escondida pela jaqueta. O primeiro cachorro veio em minha direção, sem hesitar eu atirei. A mancha de sangue que se fez no chão me avisou que eu acertara o alvo. Os minutos que se seguiram foram de um barulho insurdecedor por conta dos tiros. Mas pelas minhas contas, eu tinha acertado todos os cachorros malditos.
Eu fui entrando a pé pela propriedade que parecia uma fazenda. Uma guarda de médio porte equivalia a cerca de 6 ou 7 demônios. E dentro da casa, um sistema de alarmes que dificultaria um pouco o meu roubo. A faca estivera por muito tempo em posse de Ruby, mas agora ela estava sobre o controle de um demônio muito mais importante e poderoso, Crowley. Ele não se arriscara a deixar a faca em sua casa porque sabia que muitos caçadores estavam atrás dela, então ele a colocara em uma fortaleza que ele julgara estar perfeitamente bem protegida.
Em pouco tempo eu pude avistar uns vultos que circulava uma casa pequena de madeira. Com uma agilidade que eu demorara muito tempo para conseguir, eu troquei as armas. Agora a pistola estava em minha mão, e o revólver escondido. Eu me aproximei em silêncio e os tiros recomeçaram. Depois de ter certeza de que estavam todos mortos, eu entrei na casa. A faca estava em um recipiente de vidro no centro da sala. Eu me adiantei para pegá-la, e quando faltava menos de um metro para alcançar o vidro, eu sinto uma lâmina em meu pescoço.
- Olá Mayburn - uma voz sedosa feminina sussurra em meu ouvido - um passo e eu te mato.
- Ruby - eu saudei com a respiração difícil - Você está do lado errado Ruby, e você sabe disso. Eu preciso dessa faca por uma razão que irá beneficiar a nós dois.
- E como eu vou confiar em você? Jack já me passou a perna algumas vezes.
- Eu não sou como Jack, eu mantenho minha palavra. E mesmo se não o fizesse, não existe como eu prejudicar você Ruby.
Ela hesitou e eu senti a lâmina afrouxar um pouco. Era somente desse momento de hesitação que eu precisava. Eu me virei pra ela, fazendo com que a lâmina ficasse em minha nuca, não mais em meu pescoço. Eu sorri um pouco enquanto apontava a pistola para sua barriga.
- Vamos trabalhar juntos um pouco e todos saem bem - eu propûs com um sorriso ainda brincando em meus lábios. Ela sorriu com a sobrancelha erguida.
- Eu deixo você levar a faca, e você não me mata? Não me parece justo.
Eu apertei a arma com mais força, o sorriso sumindo de meu rosto.
- Vamos lá Ruby, não me faça fazer isso.
Ela suspirou com impaciência e se afastou de mim. Eu peguei a lâmina tosca improvisada de sua mão, e caminhei em direção a redoma de vidro. Peguei a faca lá de dentro e a guardei em segurança em minha jaqueta. Ao sair, mandei um beijo cínico para Ruby que me observava sair.

--------------------------

Eu corria pela estrada cercada por altas árvores em direção ao carro. Um último hell hound sobrevivera e agora me perseguia. Um grito escapou de meus lábios quando senti dentes cortarem minha mão. Eu caí, impedido de continuar por causa da dor. Foi com muito esforço que conseguia me levantar, e atirar no animal . Eu estava perdendo muito sangue, e não sabia o que fazer. Corri em direção ao carro e quando entrei, Ruby estava lá dentro.
- Menino idiota, olhe só a sua mão.
E antes que eu pudesse responder, ela já estava estancando o sangue com um pedaço de sua pópria blusa. Eu olhei pra ela incrédulo.
- Já avisei a Jack que você foi ferido, ele já está na casa de Glory te esperando para cuidar disso. Me agradeça depois, eu tenho que ir.
E antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela já não estava mais lá. Eu liguei o carro e dirigindo devagar eu segui para a pousada.

-----------

¹ Na verdade, as pistolas silenciadas não apresentam uma diferença significativa de som, mas ainda assim. Vamos fingir que o barulho alto de um tiro é minimizado a um silvo baixo. N.A.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Cápitulo 5.

A escola ficava a uma distância considerável da pensão, então fomos obrigados a caminhar pelas ruas lúgubres da nevoenta cidade de Londres, o que não melhorou em nada o meu humor. A cada passo eu me sentia pior e menos confiante. Em pouco tempo nem a presença de Rupert me consolava. Ele tentava, em vão, manter um diálogo, mas eu estava tão nervosa que frustrava todas as suas tentativas.
- Holly, você tem que se acalmar! Não vai ser assim tão ruim... Eu vou estar lá com você... - ele tentou me consolar novamente, acariciando delicadamente o meu braço. Eu inclinei minha cabeça de modo que pudesse fitar seus olhos e sorri.
- Não fique tão aflito Rupert, quando chegarmos eu vou melhorar. Eu juro.
Seu olhar angustiado não cedeu a minha tentativa de mostrar confiança. Era irônico mas agora era eu quem procurava tranquilizá-lo. Eu parei de caminhar e segurei Rupert pelo braço. Apesar da total ausência de força em meu toque, ele parou instantaneamente.
- Eu sei uma coisa que vai me acalmar - eu disse em uma corajosa tentativa de sorrir.
- Ah é? E o que seria? - ele questionou, embora eu jurasse ter visto um brilho de diversão perpassar seu olhar. Com um sorriso no canto dos lábios eu me ergui na ponta dos pés e ele, entendendo rapidamente o que eu queria, inclinou seu rosto para mim. Seus lábios macios tocaram os meus me fazendo esquecer todas as minhas angústias. A única realidade eram as mãos quentes de Rupert em minha cintura, seus lábios perfeitamente sincronizados aos meus, seu perfume que me enchia de boas lembranças de coisas que ainda não aconteceram. Quando o beijo acabou, continuamos abraçados, Rupert com um sorriso exultante e eu com um peso tirado de minha consciência.
Ele se livrou de meu abraço e voltamos a caminhar. A névoa se tornara menos densa e as gotas de chuva começavam a cair do céu esbranquiçado. O enorme complexo da King's High School despontou a nossa frente e o nervosismo voltou a assolar minha mente. Ao entrar nos limites da escola, como eu previra, uma máscara de coragem se instaurou em mim. O meu modo de andar se tornou defensivo, quase desconfiado, uma maneira de impôr distância ensinada por meu pai. Eu ainda lembrava da suz voz grave aconselhando-me em segredo.
- Holly-woo, nunca demonstre fraqueza perante seus inimigos ou medos, pois isso só a tornará mais vulnerável.
Minha mãe não permitia que meu pai participasse efetivamente de minha educação, por isso tudo que aprendi com ele teve que ser ensinado em segredo. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, e depois de sua morte minhas relações familiares entraram em colapso. Meus avós, que sempre preferiram abertamente meus primos a mim, se tornaram ainda mais escrachados depois da morte de meu pai. Minha mãe buscava em relações frágeis e impensadas um modo de superar a sua perda, o que contribuia para que a ruptura que se formara nunca suturasse. Por isso eu não gostava de ter saído dos EUA e ido para a realidade burguesa de Londres. Eu fui obrigada a abandonar o lugar em que eu me sentia de fato em casa, onde lembranças de bons momentos com Bill - meu pai - me assaltavam esporadicamente, por causa das aventuras insólitas de minha mãe. Eu ainda voltaria para o meu lar, mas no momento a King's High School abria seus braços mesquinhos para mim.
- Rupert, qual é a nossa primeira tortura? - perguntei pelo canto da boca enquanto observava com olhos mais críticos do que o habitual a estrutura dos grandes edifícios que nos cercavam. Ele riu suavemente antes de responder.
- Educação Física.
Eu dei de ombros como quem diz "poderia ser pior". E eu viria a descobrir que eu estava redondamente certa. Poderia ser, de fato, muito pior. Uma voz aguda, infantil e incômoda penetrou no parcial silêncio que se instaurara entre mim e Rupert.
- RUP!
Ele fefchou os olhos e suspirou com visível impaciência.
- Ei! Vai continuar me ignorando Rup?
Ele se virou lentamente e um falso sorriso que mais parecia um esgar apareceu em seu rosto, maculando sua beleza angelical.
- Jen - ele saudou a garota educadamente.
Retardada era uma palavra que poderia caracterizar bem aquela criatura que surgiu em nossa frente. Jen, ou sei lá o nome que ela tinha, parecia uma barbie saída de um horrível casamento. Uma longa cortina de cabelos loiros platinados emoldurava um rosto branco e macilento coberto por uma camada mal feita de maquiagem. Para piorar a imagem daquela boneca demoníaca, um vestido branco lhe caía "soltinho" sobre o corpo magro. Definitivamente, a voz repugnante era dos males o menor. Talvez por perceber meu olhar de absoluta reprovação, a garota se dirigiu a mim.
- Olá, quem é você?
- Holly James - respondi secamente. Aquela garota era digna somente de meu desprezo.
- Então, Holly, essa é a Jen, minha... - Rupert começou a nos apresentar formalmente.
- Namorada - ela interrompeu. Eu ergui as sobrancelhas com total descrença.
- Namorada é? Rup? - perguntei no meu melhor tom de sarcásmo.
- Não, nós não somos namorados. Nunca fomos. - ele se defendeu rapidamente.
Eu revirei os olhos e suspirei. Aquela não era uma conversa que eu esperava ter no meu primeiro dia de aula.
- Enfim, não me importa. Qual é a sua graça querida?
- Jennifer Von-Tudor, sou uma descendente direta dos Tudor.
- Direta dos Tudor? Poxa, quantos mil anos tem a sua mãe? - perguntei e sorri ironicamente.
Ela me lançou um olhar que eu supus que fosse uma tentativa de demonstrar desprezo. Eu suspirei e me dirigi a Rupert.
- O que foi isso? - questionei incrédula.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Cápitulo 4.

Já eram quase oito da noite quando chegamos na casa de Glory.
- Olá meninos - saudou-nos Glory ao abrir a porta.
- Hey Glory - respondi.
Entramos na pensão e logo vi minha mãe, que estava sentada na sala lendo uma revista. Sorri pra ela mas fui para o quarto sem falar nada, seguida de perto por Rupert. Quando chegamos na porta do meu quarto, Rupert me segurou, e me olhou com uma intensidade ardente como ele nunca me olhara antes.
- Calma, eu queria te mostrar uma coisa.
- Ah, ok - respondi confusa e voltei a fechar a porta.
Ele voltou a andar em direção ao fim do corredor, eu o segui me questionando aonde estaríamos indo e o que ele queria me mostrar. Paramos em frente a uma porta, onde eu supus que fosse seu quarto, ele abriu a porta e fez um gesto com a mão para que eu entrasse.
Havia um baú antigo com ornamentos delicados fechado com um cadeado obsoleto no canto do quarto, a cama estava desorganizada com um violão por cima da roupa de cama embolada, e tinha um computador em um rack perto da janela.
Ouvi o som da porta fechando atrás de mim e quando virei, me deparei com Rupert bem mais perto do que eu esperava. Ele colocou suas mãos em meu rosto, aproximou seu rosto do meu e me beijou. Eu retribui o beijo confusa, meus olhos se fechando devagar enquanto eu me habituava ao toque suave de seus lábios macios. Poderíamos ter ficado ali até o fim dos tempos e eu nem teria percebido. Até que nos separamos, eu abri os olhos e Rupert me fitava atento, buscando sinais de desaprovação. Eu sorri e o abracei.
- Você não ficou brava certo? - ele murmurou com a boca em meus cabelos úmidos.
- Claro que não - respondi revirando os olhos.
- Que canalha eu devo estar parecendo ser, te trago ao meu quarto só pra me aproveitar de você. - ele brincou enquanto afagava meu cabelo delicadamente. Eu ri baixinho com o rosto em seu peito forte, inspirando o máximo do perfume que emanava de sua camisa que conseguia. Eu levantei o olhar e encarei novamente seus olhos.
- Obrigada por hoje, foi um dia muito especial pra mim.
Rupert sorriu e me beijou de novo. Foi um beijo mais curto, mas foi ainda mais doce que o primeiro. Ele se afastou de mim um pouco, para o caso de alguém entrar no quarto, não parecer que estávamos fazendo algo errado.
- Acho melhor eu te levar para o seu quarto, você tem que arrumar as suas coisas para amanhã - ele propôs gentilmente. Ele me levou até meu quarto, onde fiquei sentada na cama pensativa por um bom tempo.
Primeiros dias em escolas nunca eram bons pra mim, mas desta vez eu sentia que ia ser diferente. Abri minha mochila e tirei meu celular do bolso interno. 5 ligações perdidas de um número desconhecido. Quando eu retornei para saber quem era, uma voz apática, mas conhecida, atendeu.
- Sim?
- Vince!
- Oi Holly! Como você tá? E a Meg? Porque não me atendeu hein?
- Hey Hey, uma coisa de cada vez - respondi rindo - Eu estou... excelente, mamãe também está bem. Eu passei o dia conhecendo a cidade, não ouvi o celular. Ah, e eu já arranjei uma escola, começo amanhã mesmo - conclui pensando se ele repararia na pequena hesitação na hora de dizer como eu estava.
- Excelente? Posso saber o porquê de tamanha alegria? - Droga, ele percebeu.
- Hmm, quando a gente se ver eu te conto ok? - respondi evasiva.
Vince sempre respeitou muito meu espaço, então ele apenas concordou e mudou de assunto. Acho que era por isso que eu gostava tanto dele, ele me entendia como ninguém. Depois de desligar o telefone, fui arrumar minhas coisas. Eu já gostei da escola por permitir o uso de notebook ao invés de caderno. Na minha mochila estavam meu notebook, meu Ipod, minha carteira, uns livros que nunca saiam de lá e outras bobagens como balas e presilhas.
Acordei na manhã seguinte agradecendo internamente pela boa noite de sono. Me vesti rapidamente com uma calça jeans, meu velho all star surrado, uma camiseta do AD/DC e uma camisa de botão por cima e deixei meus cabelos soltos.
Encontrei Rupert ao sair do quarto já com a mochila nas costas, ele me cumprimentou com seu lindo sorriso e segurou minha mão. Ao seu toque o mundo pareceu mais quente e convidativo. De repente a perspectiva de um primeiro dia em uma nova escola me pareceu bem mais agradável do que eu imaginei ser possível.

Post alheio.

"Ah, eu te amo tanto Joe, eu não me imagino mais sem você, de sua amada Rose" Ele segurava a foto dos dois juntos com a dedicatória.
Joe estrega a Rose um buquê de flores e com ele um cartãozinho com alguma daquelas frases prontas de amor. Hoje eles faziam 5 anos de namoro, e Rose tinha certeza que após ese aniversário, ele a pediria em casamento. Para todos que os conheciam, eles eram um casal do tipo "que dura".
A história deles tinha começado de um jeito comum. Eles se conheceram no final do ensino médio, ele era o jovem popular e ela a mais inteligente da turma que morria de amores pelo garoto mais popular do colégio. Claro que algumas amigas de Rose e todos os amigos de Joe tinham certeza que Joe estava só enrolando. Mas aquela teoria que diz respeito sexual já fora descartada, pois eles estavam a 5 anos juntos, então, a resposta era óbvia.
- Vamos para a chácara do seu pai amor, é isso? - Rose encarava Joe enquanto ele se barbeava.
- É amor, prometo que você vai gostar, agora vem cá - ele se aproximava devagar dele, sem perceber a envolveu em seus braços, encostou seus lábios nos dela e disse baixo - Rose pega um drinque pra nós dois, sim?
Enquanto ela pegava a bebida, ele mexia no seu bolso, como se procurasse alguma coisa.

XXX

Ele agora arrastava Rose pelo chão, a levando para o lugar certo. Rose estava parcialmente conciente.
- Joe, pra onde está me levando? - ela falava sonolenta.
- Rose, calma, vai dar tudo certo - Joe falava como se prendesse o riso. Ele finalmente chegou em um lugar que ficava bem distante da casa em que ficaram algumas vezes. No chão podia de ver um círculo, alguns cigarros pagados e folhas. Ele a largou dentro do círculo.
- Rose, eu nunca te amei sabia? - ele estava em cima dela, acabara de lhe dar um beijo e passava a mão em seu rosto - Sério, eu nem sei porque a gente ficou junto até agora - ele ria, pegara a faca do bolso.
- Joe, o que você está dizendo? Não pode ser... - seus olhos estavam se enxendo de água agora.
- É isso mesmo, eu só te enrolei, e você caiu direitinho - ele beijava o pescoço dela e devagar ia abaixando os beijos até encostar a faca em sua pele branca - Me desculpe por isso - ele enfiou a faca no braço de Rose - Mas você deveria ter escutado as suas amigas, sua vadia - ele enfiara a fava em sua perna.
Era possível ouvir o choro e os gritos abafados de Rose. Ele já tinha dado pelo menos umas 5 facadas nela e se preparava para a mais esperada.
- Não precisa disso Rose, meu amor, eu já vou acabar com isso - ele com uma frieza indescritível, cravou a faca no peito de Rose e saiu de cima dela. Ela ia parando de gritar aos pouco, estava parando de se contorcer.
- Joe... - ela lutava pra falar - eu...
- É, eu também.
E ele se virou, acendeu um cigarro, jogou a foto dos dois juntos em cima dela e saiu com um sorriso no rosto.

por: HLW

sexta-feira, julho 30, 2010

Capítulo 3

Desta vez não tinha nada de angelical no meu sonho. Era uma estrada, que não parecia ter fim, cercada por uma densa floresta. Eu observava do alto, Rupert fugir de animais que não estavam visíveis, mas eles estavam ali. Eu podia senti-los, e não vê-los só tornava tudo mais assustador.Acordei sobressaltada com meu próprio grito.
- Foi só um sonho - murmurei para me acalmar. Mas eu estava nervosa demais, fora tudo tão real. O cheiro dos animais ainda invadia meu nariz, quando eu peguei o notebook na mochila e o liguei.
Animais Invisíveis Foi o que eu digitei na barra de busca. Entre vários resultados, uma chamou minha atenção.
Os animais que guardam a entrada e saída para o Mundo dos Mortos, conhecidos como 'Cães do Inferno' (Hell Hounds), são invisíveis para todos os que estão no mundo dos vivos, mas isso não impede que humanos possam sentir o cheiro acre de corpos apodrecidos que emana de sua boca sangrenta, ou pior, sentir seus dentes pontiagudos dilacerando sua pele [...]
Eu não conseguia respirar, minha cabeça estava girando. Decidi que para o meu próprio bem, essa noite não seria comentada com ninguém. Achei melhor tentar dormir denovo, então só coloquei o notebook no chão, fechei os olhos e mergulhei em um sono sem sonhos.
Na manhã segiunte eu acordei, e a noite anterior parecia bem menos assustadora, agora que o sol e o dia claro de Londres iluminavam meu quarto. Me levantei devagar, e fui em direção ao armário. Eu iria atrás de uma escola hoje, nem que fosse debaixo de neve, sozinha. Lembrando-me do comentário de Rupert sobre o frio, coloquei uma legging por baixo dos jeans, uma blusa de manga comprida com a jaqueta por cima e um sobretudo me protegendo. Arrumei minha mochila com o notebook dentro, alguns livros, meu iPod, celular e a carteira. As luvas já estavam no meu bolso quando alguém bateu na porta.
- Entra! - gritei em respotsa enquanto procurava um chapéu.
- Oi Holly! Já está pronta? Ou agora é você que vai furar comigo? - disse Rupert entrando com um sorriso debochado no quarto e se sentando na cama.
- Ah, oi Rupert - cumprimentei sem sorrir e nem olhar para ele - Bom, não ficou nada marcado para hoje, não é? - perguntei euquanto arrumava o chapéu.
- Tecnicamente não, mas eu disse que iria com você, certo?
- É - concordei - do mesmo modo que você disse que ia comigo ontem, e que disse que ficaria comigo à tarde... - resmunguei, me virando para ele. Quando vi aqueles olhos azuis confusos com a minha evidente frieza, me lembrei o porquê de não ter me virado antes. Seus olhos tinham um poder hipnótico sobre mim, e ele estava estonteante. Mas reparei que uma de suas mãos estava machucada.
- Eu tive que resolver um problema, e já me desculpei - me lembrou ele, agora com um quê de frieza na voz.
Ficamos nos olhando calados por um tempo imensurável, até que resolvi quebrar o silêncio.
- Mas você vai de verdade comigo hoje? - perguntei dando um sorriso.
- É claro que eu vou! Inclusive, te levo para comer depois, pode ser?
- Me parece bom - respondi sorrindo.
- Ah, e pode tirar esse sobretudo e essas luvas, hoje não está tão frio - ele acrescentou. Eu assenti ainda sorrindo. Ele esperou enquanto eu tirava o sobretudo e as luvas e jogava em cima da cama.
O passeio correu extremamente bem, e apesar de com frio e cansada, estava satisfeita com o trabalho da manhã. Eu havia me matriculado na escola de Rupert, e ele conseguiu me colocar na turma dele em todas as aulas. Demos um breve passeio pela escola, e então fomos almoçar juntos.
Londres era uma cidade magnífica, e Rupert parecia conhecer muito bem mesmo o lugar. Escolhemos em restaurante de comida indiana para almoçar. Quando já estávamos sentados juntos, esperando a comida, eu olhei melhor para o machucado na mão de Rupert. Com um sopro de desespero, me lembrei claramente do sonho da noite anterior. Um dos animais mordera Rupert, ele levantara cambaleante, um sangue escarlate escorrendo de sua mão. Seria coincidência?
- Como você machucou a sua mão? - perguntei em um tom um tanto inquisitivo.
Ele, para minha surpresa, não se alterou ou ficou nervoso, apenas sorriu e respondeu sereno:
- Nada, caí outro dia. Essa neve toda deixa as ruas muito escorregadias.
Ao dizer isso, Rupert me passou tanta segurança que eu nem questionei.
- Ah sim, mais cuidado então mocinho - respondi sorrindo.

quarta-feira, julho 28, 2010

Capítulo 2

Eram quase nove da manhã quando minha mãe entrou em meu quarto para me acordar.
- Bom dia querida! Rupert me contou os planos de vocês para hoje, então achei melhor vir acordá-la.
- Ah, ok mãe - respondi sonolenta.
- Aliás, acho excelente que você já esteja arrumando amigos por aqui - acrescentou ela sorridente.
Eu assenti com um leve sorriso, enquanto procurava um prendedor de cabelo. Minha mãe saiu do quarto me dando um pouco de privacidade.
- Que diabos de roupa eu vou vestir? - falei sozinha enquanto abria a mala.
Depois de um tempo tentando achar uma roupa, eu me conformei com a minha velha calça jeans rasgada, uma camiseta de manga comprida e uma jaqueta de couro, que era o meu xodó. Peguei minhas coisas e fui em direção ao banheiro. O banheiro da pousada era pequeno, e eu tive que me espremer entre os várioas armários para conseguir ligar o secador de cabelo. E eu precisava mesmo secar o cabelo, porque sair de cabelo molhado em Londres, era o mesmo que pedir para ficar doente. Eu fiquei pronta as nove e meia, com os meus cabelos curtos presos em um rabo de cabalo.
Sentei em uma das mesas da sala com um prato de ovos mexidos e bacon, esperando que Rupert desse sinal de vida. Eram exatamente dez horas quando a porta da pousada abriu, e Rupert entrou ofegante de frio. Eu sorri pra ele, e seu sorriso em resposta veio quase imediatamente.
- Holly! - ele comprimentou acenando para mim enquanto pendurava o sobretudo nos cabides - Receio que os nossos planos para hoje tenham que ser remarcados, pois a neve está quase chegando aos meus joelhos! - e apontou para os pés, enxarcados.
- Ah, mas eu já estava pronta... - respondi fechando a cara. Ele sorriu e veio se sentar ao meu lado.
- E você ia só com essa jaqueta? Não esquece que aqui tem aquecedor. Lá fora deve estar uns 15º negativos. - e riu. Eu dei língua.
Sua beleza era ainda mais magnífica no frio, quando suas bochechas enrubreciam, e o cabelo úmido caia delicadamente sobre o rosto ligando-se assim, aos longos cílios negros.
- Se você não se importar, nós poderíamos ficar aqui na pousada mesmo, tocando guitarra ou qualquer outra coisa que você queira fazer - ele propôs ainda sorrindo pra mim.
- Na verdade, já que você vai furar comigo, eu acho que vou terminar de arrumar minhas malas, essas coisas. - eu respondi dando de ombros, fazendo com que sua expressão desmanchasse rapidamente - É claro que você está convidado a embarcar nessa missão - acrescentei com um pequeno sorriso - eu acrescentei com um pequeno sorriso - Eu até deixo você tocar minha guitarra.
- Você não fica preocupada de ficar fechada em um quarto com um cara que você acabou de conhecer? - me questionou com um sorriso malicioso.
- Na verdade... - comecei, mas ele me interrompeu.
- Brincadeira, juro que sou inofensivo - ele disse rindo.
- Ok, promete que não vai me matar, roubar ou estuprar? - brinquei.
- Matar definitivamente não, nem estuprar. Roubar... hmm, depende de que guitarra estamos falando. - ele respondeu. Eu ri.
- Enfim, contanto que você não me mate ou estupre, acho que não me incomodo em ficar fechada no meu quarto com você. - eu disse me levantando.
Ele me seguiu, entrou no quarto atrás de mim e sem cerimônia alguma, sentou na minha cama. Seus olhos esquadrinhavam tudo no ambiente, e pareciam estar absorvendo cada detalhe do lugar. Seu olhar se demorou no porta-retrato que eu colocara no criado-mudo na noite anterior. Mostrava um jovem com cabelos escuros caindo sobre parte de seu rosto em uma franja repicada, abraçado a uma garota com cabelos castanho-avermelhado preso em um coque mal-feito. Eu e meu irmão, Vince. Não éramos irmãos de sangue, ele na verdade era meu amigo, e como ele ficou orfão muito cedo, minha mãe meio que o ''adotou''.
- Namorado? - ele arriscou.
- Amigo, quase irmão. Ele deve estar chegando a Londres depois do natal, talvez para a festa de Ano Novo. - respondi soltando meu cabelo lentamente. Percebi que Rupert me olhava, e contrangida me virei pra ele.
- Que foi?
- Nada, nada.
Eu dei de ombros e peguei minha guitarra. Fui caminhando com a guitarra em direção a Rupert.
- Toma, cuida dela, porque como eu vou mexer no ármario, ela pode cair - disse ao me sentar ao seu lado e entregar o case a ele.
- Calma, vamos conversar um pouco antes de você começar seu trabalho - ele propôs gentilmente depois de pegar a guitarra.
- Como quiser... Sobre o que quer falar?
- Hmm, você! Por que se mudou para Londres?
- O último namorado da minha mãe era meio louco e ficava persegiundo ela depois que levou o fora, e isso me dava nos nervos. Então minha mãe se demitiu e resolveu que Londres era um bom lugar pra se morar.
- Mas você não queria vir?
- Bom, querer, eu até queria, mas não queria ter que deixar minha vida pra trás.
Ele ficou me olhando com uma expressão indecifrável, até que o barulho do celular dele chamou sua atenção.
- Acho que eu tenho que ir... - ele resmungou olhando o celular - me desculpe Holly, mesmo! - mas eu fiquei tão chateada com a repentina rejeição, que meramente assenti.
- Amanhã eu te levo na escola e tudo mais está bem? Me desculpe mesmo - repetiu angustiado. Suas mãos quentes tocaram meu rosto, e quando levantei o olhar, só tive tempo de sentir seus lábios em minha testa e ele já saía rapidamente do quarto, fechando a porta ao passar.
Fiquei olhando para a porta fechada por um tempo até me conformar que eu estava sozinha. Me deitei na cama e simplesmente dormi.

terça-feira, julho 27, 2010

Capítulo 1

Enfim eu pude avistar a tal pousada. Até que era bonitinha, meio clássica, meio moderna. A senhora que era amiga da minha mãe, se chamava Glory e era pequena, com uma cara engraçada. Ela veio nos receber com um grande sorriso no rosto.
- Sejam bem-vindas minhas amigas!
- Obrigada Sra. Mugley. - respondi sorrindo, enquanto minha mãe atacava a pobre mulher em um abraço apertado.
- Eu vou chamar o meu filho, Rupert, para ajudar a levar as coisas de vocês lá pra dentro. - me disse ela, assim que conseguiu se livrar do abraço de minha mãe. Eu assenti com um sorriso falso no rosto enquanto ia caminhando para o porta-malas pegar as malas, e ela entrou na casa para chamar o tal filho. "Com a minha sorte, deve ser um nerd bem chato" eu pensei rabugenta.
Foi quando eu o vi, caminhando traquilamente, com uma elegância natural, e um sorriso tão lindo que eu não acreditava que fosse real. Quando ele se adiantou para me ajudar a pegar as coisas que estavam no carro, eu pude sentir o aroma maravilhoso que emanava de sua pele clara. Após meu surto de futilidade, eu voltei minha atenção para a minha guitarra que estava logo embaixo da mala que o tal Rupert estava tirando.
- Você toca? - disse Rupert com um voz grave meio rouca acompanhando o meu olhar. Eu sorri sem graça e respondi.
- Toco, eu tinha uma banda lá na California - "Tagarela, tagarela" pensei com raiva.
- Eu também toco. Nós podíamos tocar juntos qualquer dia, não? - e ele deu seu sorriso perfeito - A propósito, meu nome é Rupert - e estendeu a mão para mim.
- Holly - eu disse apertando sua mão com um sorriso.
Graças a chegada de minha mãe, nosso pequeno diálogo teve que ser interrrompido. Rupert saiu na frente levando a minha mala e o meu amplificador, segiudo por minha mãe que levava sua própria mala e um edredon amarrado ao pescoço. Eu fiquei parada em frente ao porta-malas aberto, pensando que talvez londres não fosse tão ruim afinal.
Peguei minha guitarra e minha mochila e fui andando para dentro da casa. Era bem aconchegante lá dentro e eu me senti a vontade para seguir a voz da minha mãe que vinha do fim do corredor.
- Holly querida, o que faz aqui? - exclamou minha mãe surpresa ao me ver entrar no quarto - O seu quarto é o do lado, o filho da Glory está lá com as suas coisas! - Eu fiquei olhando estarrecida para minha mãe.
- Eu vou ter um quarto só pra mim? - perguntei incrédula.
- Claro meu amor, ou você vai querer dormir comigo? - perguntou ela risonha abrangendo com um amplo gesto sua cama de solteiro.
- Não, não, fico sozinha mesmo - respondi saindo do quanrto rindo.
Quando eu entrei no meu quarto, Rupert estava terminando de arrumar a cama.
- Este é o seu edredom, certo? - perguntou ele sorrindo ao me ver entrar no quarto.
- Ãã... - resmunguei vagamente. Seu sorriso era tão bonito, com os dentes retos e brancos que contrastavam delicadamente com sua boca avermelhada, que fiquei temporariamente sem fala.
- Holly? Está tudo bem? - ele perguntou novamente, o sorriso sumindo de seu rosto. Ao som de sua voz grave eu despertei de meus devaneios constrangida.
- Sim, estou bem, estou um pouco cansada, me desculpe. E sim, este é o meu edredon. Obrigada por arrumar a minha cama. Não era necessário. - respondi enquanto entrava no quarto e colocava minha guitarra apoiada no armário e minha mochila em cima de uma poltrona cafona que ficava no canto do quarto.
- Ah, sem problemas. Eu vou indo, precisando de qualquer coisa é só ligar para a recepção. - ele disse indicando o telefone com a cabeça.
- Ok, muito obrigada. - respondi observando ele saindo com um aceno de cabeço do quarto. Eu suspirei e me sentei na cama, quando de repente ouço a voz de Rupert novamente.
- E sobre nós tocarmos juntos? - ele disse voltando a entrar no quarto.
Apesar de lisonjeada com tamanha atenção, ainda mais vindo de um cara como Rupert, eu não menti quando disse que estava cansada. Ainda assim me virei sorrindo e disse.
- Podemos ver isso qualquer dia, afinal ainda estou de férias. Deixe só eu achar um escola para me matricular e você vai conhecer a melhor guitarrista do mundo desde de Joan Jett - e sorri, bastante surpresa qe ele também estivesse rindo da minha idiotice.
- Uau! Mal posso esperar. - ele brincou rindo - E sobre a escola... Bom, eu posso te levar a algumas escolas aqui por perto, te mostrar a cidade, sei lá - ele respondeu dando de ombros.
- Sério? Nossa, isso seria incrível! Podemos ir quando você quiser, é só me avisar! - respondi encantada com a perspectiva de não ter que andar sozinha por Londres.
- Podemos ir amanhã? - ele perguntou.
- Claro, amanhã seria ótimo. - respondi sorrindo. Ele não estava simplesmente sendo educado, ele queria mesmo me ajudar.
- Então até amanhã, Holly - ele disse ao sair do quarto, fechando a porta e me deixando imersa em pensamentos.
Eu fiquei deitada pensando no quanto o cabelo negro com cachos grandes emoldurava bem aquele rosto esculpido em mármore, me remetendo aos anjos gregorianos, e no quanto aquele sorriso me deixava sem palavras. E isso tudo sem falar nos olhos, de um azul surreal e uma profundeza que não podia ser posta em palavras. Devia ser bem tarde quando eu consegui de fato dormir. Sonhei com anjos que tinha giutarras ao invés de harpas, cabelos negros com a noite ao invés de dourados e sorrisos que tinham o brilho de uma magnitude que superava a do sol.

Prólogo

29 de Novembro de 2007. Minha mãe finalmente decidiu que era hora de deixar a california e seu ex-namorado psicopata para trás. Apesar de concordar com a decisão dela, eu não queria deixar o meu mundo. Não era apenas da nossa bela casa perto da praia que eu estava me despedindo. Minha banda, que finalmente estava deslanchando, meus amigos, o sol quente, minha cidade. Tudo ficava para trás enquanto eu estava sentindo, talvez pela última vez, a brisa que vinha da praia, sentada no carro com a minha mãe. Estávamos a caminho do Aeroporto Internacional de San Francisco, prestes a enfrentar quatro exaustivas horas em um vôo na classe econômica, provavelmente sobrevivendo à base de barrinhas de cereal duras e banana até chegar a Londres.
Como eu imaginei, as horas no avião passaram tão devagar, que eu quase chorava só de pensar no que eu poderia estar fazendo ao invés de estar ali. Minha mãe conseguiu me convencer a ficar um temporada em um pousada de uma amiga dela, até as coisas se estabilizarem. Eu preferia ficar na casa dos meus avós, afinal, dividir quarto com a mãe aos 17 anos de idade não é muito agradável. E tinha outro aspecto desfavorável, minha avó morava em Kensington, e a tal pousada era na Fleet Street. Nada contra, mas tinha uma grande diferença poder morar num ilustre bairro nobre e em uma rua qualquer. Ah, e o meu nome é Holly, Holly James.