- Seu pai? Você nunca fala nada sobre ele - ele contestou surpreso.
- Eu sei, mas essa noite eu sonhei com ele, e percebi que já não sou mais capaz de manter todos os meus segredos sozinha. Eu vou acabar enlouquecendo.
- Bom, então pode me contar. Eu juro que essa conversa jamais sairá daqui.
Eu deixei que as palavras fluíssem da minha boca distraídamente, pois eu sabia que se eu me desse conta de fato do que eu estava falando, eu provavelmente não continuaria, ou editaria alguma coisa. Eu contei tudo sobre Bill para ele. Contei sobre as caçadas, contei sobre os treinamentos, sobre sua morte e sobre a missão que ele me incumbira. Rupert ouvia tudo calado, com uma expressão impassível no rosto. Quando eu terminei, ele apenas disse.
- Eu já sabia.
- O que? O que você já sabia? - perguntei incrédula, minha voz subindo algumas oitavas devido a enorme surpresa.
- Eu já sabia tudo isso sobre o seu pai. Ele é muito conhecido entre os caçadores, o velho Bill.
- Entre os caçadores? Rupert, o que você sabe sobre caçadores? - eu não coneguia acreditar, ele conhecia a verdade, ele me ajudaria, não sentiria nojo de mim ou nada parecido.
- Eu sou um caçador Holly. Fui treinado praticamente a minha vida inteira. Eu fico surpreso que você também tenha sido. A informação que eu tinha era que o velho Bill escondeu da família seu segredo até o fim de sua vida.
- Bom, na verdade não. Ele me contou quando eu tinha 6 anos. Mas você chegou a conhecê-lo? Quem te treinou? Por que você não me contou nada antes? Você já sabia sobre o meu pai? - as perguntas saiam desenfreadas por meus lábios. Durante as horas seguintes, Rupert me contou tudo sobre a sua vida como caçador.
Ele fora treinado por dois caçadores - que foram amigos de meu pai - Jack e Lita. Seu pai, Carl Mayburn - também caçador - foi morto por um trickster quando ele era apenas um garoto, 7 anos de acordo com suas memórias. Ele conheceu meu pai de relance em um bar frequentado por caçadores, o Harvelle's RoadHouse, e foi instruído por Jack a não comentar nada comigo sobre meu pai. A surpresa logo deu lugar a segurança, agora eu sabia que eu não estava sozinha. Agora eu sabia que quando chegasse a hora de agir, Rupert estaria comigo.
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A lua já irradiava sua luz branca sobre a cidade de Londres, a neve caia fraca pelas ruas sombrias. Eu já estava no meu quarto na pensão, com a companhia quase eterna de Rupert. As descobertas da tarde, tinham nos levado a pensar sobre um futuro inelutável que já não estava mais tão distante, já que o meu aniversário de 18 anos ia acontecer em 10 dias.
- Assim que eu atingir a maioridade nós compramos nossas passagens para os EUA, para que eu possa aprender ainda mais coisas com Jack. Assim eu serei perfeitamente capaz de seguir a vida do meu pai, selando assim o meu destino. É isso né? - repassei o plano que nós elaboramos durante a tarde.
- Exato. Eu liguei para Jack hoje mais cedo, e ele disse que ficará encantado em nos receber.
- Duvido que ele tenha dito que ficaria encantado em nos receber - retruquei me lembrando dos comentários do Rupert sobre o gênio difícil de Jack.
- Ok, ele disse algo como "Antes tarde do que nunca hein moleque" - ele respondeu imitando Jack. Eu ria de sua brincadeira, quando eu senti a atmosfera do quarto mudando sutilmente. Rupert se inclinou em minha direção, seus olhos fixos nos meus, seu sorriso estonteante. Entendendo sua intenção, eu o censurei com um aceno de cabeça.
- Rup... - comecei constrangida, mas seus lábios encostaram nos meus me impedindo de continuar. Eu virei o rosto, e tive medo de tornar a olhar para ele, pois sabia que o desapontamento desfigurava o rosto impecável de Rupert, deixando-o vulnerável como uma criança.
- Por favor Rupert, nós já conversamos sobre isso.
- Mas eu não entendo o que o fato de nós decidirmos trabalhar juntos interfere na nossa relação.
- Ah, fala sério... - resmunguei revirando os olhos - Será que eu já não te dei razões o suficiente? Você realmente quer abordar esse assunto de novo? Que coisa maçante man.
Ele suspirou mas não retrucou. Eu detestava fazer aquilo com ele. E depois de tantos dias, era estranho não tratá-lo mais como namorado. Mas apesar dele fingir não entender, nós havíamos entrado em um acordo quando decidimos ser parceiros nesse lance de caçadores. Nossa relação ia ser fraternal, e não conjugal - apesar do termo ser absurdamente exagerado .
- Ok, desculpa Holly, foi mal. É sério, eu entendi o que você disse hoje mais cedo, e concordo. Não vou mais fazer isso ok?
Eu o abracei sem responder. Será que em algum lugar do planeta poderia existir um cara mais perfeito que Rupert? Eu duvidava muito. A porta se abriu nos sobressaltando.
- E eu posso saber o que a minha filhinha ficou fazendo a tarde inteira fechada nesse quarto? - minha mãe entrou de costas carregando uma bandeja cheia de frutas. Ela insistia em cuidar da minha alimentação, coisa que eu não reclamava, pois sabia que ele estava certa. Se ninguém cuidasse daquilo pra mim, eu viveria a base de junk foods. Ao se virar e ver Rupert, seu sorriso sumiu.
- Ah, olá Rupert, você está aqui. - ela disse friamente.
- Ãhn... Olá sra. James. Holly eu vou indo, amanhã a gente se vê ok? - ele disse se levantando - Qualquer coisa me liga - acrescentou com um sorriso.
- Claro, ligarei - respondi rindo. Rupert saiu do quarto caminhando rápido, fechando a porta ao passar. A expressão de censura era forte em meu rosto.
- Por que você falou com ele assim mãe?
- Por que? Você ainda tem coragem de perguntar? Desde que chegamos aqui você só fica com esse menino, não dá mais atenção pra sua velha mãe.
- Ah, fala sério mãe. Você espera que eu fique conversando com você sobre a escola? Daqui a 10 dias eu estarei indo embora. Vá se acostumando.
- O que você quer dizer com isso mocinha? Vai embora? Pra onde? Com quem? Com que dinheiro hein?
Eu fechei meus olhos, respirando fundo e contando a té dez devagar. Como meu pai aguentou a minha mãe por 20 anos eu não sabia, eu não a aguentava convivendo com ela por 17!
- Eu vou voltar pros Estados Unidos, com Rupert, nós vamos atrás de um cara chamado Jack que vai concluir meu "treinamento" para que eu possa seguir a minha vida. E meu pai deixou dinheiro pra mim, que vai estar disponível somente para mim no momento que eu fizer 18 anos.
- Você não vai embora Holly. Eu não vou permitir. Eu não vou permitir! - minha mãe disse, as veias de sua testa tão pronunciadas que eu achei iam explodir. Ela saiu do quarto deixando a bandeja de frutas caída perto da porta. Eu desabei na cama, e ignorando a forte rebeldia que se instaurava em meu peito, eu fechei os olhos e dormi.
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