O aeroporto estava apinhado de gente, mas chovia forte demais para que ficássemos fora dali. O vôo de Vince deveria ter chegado há cerca de uma hora. Meg voltava do guichê quando a voz insossa da mulher do aeroporto anunciou o que eu temia.
- O vôo WXZ 3748 teve complicações na pista de pouso. Recomendamos que os parentes dos passageiros de encaminhem ao portão de desembarque para facilitar o socorro.
A frieza na noticía me deu ainda mais raiva. Meus olhos marejados de lágrimas saíram de foco e os braços de Rupert me segurando com firmeza foram a última coisa que senti antes de mergulhar em uma escuridão angustiada.
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Rupert
- Holly vai ficar arrazada Meg, eu nem vou saber como dar a notícia.
- Rupert, eu te imploro fale com ela. Se ela me ver nesse estado...
- Está bem, mas espere pelo menos até que ela acorde. Na verdade, ela já deve suspeitar... - Meg se desmanchou em lágrimas novamente e eu ofereci meu abraço para confortá-la.
O avião de Vince caíra na pista de pouso e, misteriosamente, Vince e o piloto foram as únicas vítimas fatais. Eu iria conversar com Jack o mais rápido que pudesse. Não podia ser conincidência que num avião de 78 passageiros só 2 morressem, e justo esse dois. Mas agora eu tinha que falar com Holly, que como era muito apegada ao irmão, provavelmente entraria em pânico.
A porta do quarto dela se abriu e ela saiu com uma cara apática esfregando os olhos sonolenta.
- Mãe? O que houve? - ele perguntou se assustando com a situação. Meg lançou-me um último olhar suplicante antes de se retirar sem dizer nada.
- Rupert, o que está acontecendo? - ela tentou novamente.
- Bom... Qual foi a última coisa que você ouviu Holly? - comecei lentamente.
- Algo sobre... - ela se interrompeu e o choque tomou o lugar da apatia em seu rosto, sendo substituído pela compreensão, e então o que eu temia aconteceu: a dor acometeu seu lindo rosto e as lágrimas dela pareciam não ter fim. Ela se jogou em meus braços soluçante.
- Não... Isso não pode ter acontecido... Não com o meu Vince... - ela murmurava com o rosto enterrado em minha jaqueta já úmida. Eu a abraçava forte para tentar lhe mostrar que ela não estava sozinha, que eu estaria com ela sempre que ela precisasse.
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Holly
Meu mundo parecia estar desabando. Vince se fora, eu jamais teria alguém para confiar, alguém para conversar, alguém como ele. Eu sentia como se um pedaço de mim estivesse me deixando. Eu não podia acreditar, Vince morrera há menos de 5 horas, e eu já me sentia infeliz de uma maneira que eu não sabia explicar. Ele sempre fora meu amigo, meu irmão, meu confidente. Acho inclusive, que se eu não tivesse Rupert, eu me mataria de tanto desgosto.
- Holly, eu sei que é um momento terrível pra você, mas nós temos que conversar. - Rupert disse entrando no quarto após ter saído para falar com Jack no telefone.
- O que é?
- Jack tem suposições interessantes e bastante plausíveis sobre a morte do seu irmão.
- Suposições? O que? Ele morreu num acidente aéreo, quais são as possibilidades?
- A queda não poderia tê-lo matado. Jack acha que ele foi morto dentro do avião. E o piloto também, por isso o acidente.
Eu o fitava atônita, como assim? Assassinato? Teria algo a ver com a morte do meu pai? Definitivamente, eu precisava visitar o tal Jack, eu precisava de respostas.
- Rupert, nós precisamos ir pro Kansas. Eu não aguento mais esses segredos, eu preciso de respostas! - e antes que eu me desse conta, eu já estava gritando desesperada, as lágrimas de volta em meus olhos.
- Eu concordo Holly, mas procure se manter calma. Temos que esperar o seu aniversário. Mas não fique exasperada - ele acrescentou ao me ver tentar argumentar - só faltam 3 dias.
Eu suspirei vencida. Só 3 dias e eu estaria livre. Um cansaço profundo se abateu sobre mim, e eu pedi - um pouco bruscamente, confesso - que Rupert me desse um pouco de privacidade, pois eu estava exausta. Eu dormi quase instantaneamente, e quando acordei no dia seguinte, a densa realidade da morte de Vince caiu sobre mim. Eu teria que superar, se não acabaria enlouquecendo. E a melhor maneira de superar seria agir. Eu tentei me recompor antes de sair do quarto, para que não parecesse que eu passei a noite chorando - o que de fato aconteceu - e piorasse ainda mais o clima.
Encontrei minha mãe em seu quarto, sentada na cama ao telefone. Eu fiquei constrangida de vir falar com ela em busca de concelhos depois de ter sido tão grossa com ela, mas eu não tinha escolha. Eu bati na porta hesitante. Minha mãe levantou o olhar e murmurou uma desculpa apressada para desligar o telefone, fazendo sinal para que eu me aproximasse.
- Entre, entre querida. - ela disse com a voz ainda embargada. Eu entrei no quarto e me sentei ao seu lado na cama.
- Com quem você estava falando?
- Querida, eu sinto muito por...
- Eu não quero falar sobre isso. Com quem você estava falando mamãe? - tentei novamente ficando impaciente.
- Com seus avós. Mamãe acha que devemos fazer uma super festa para comemorar o seu aniversário. Mas na atual situação não acho que seja apropriado, e era disso que eu estava tentando convencê-la.
- Pois eu discordo. Provavelmente, Vince adoraria uma big festa para comemorar a minha entrada na maioridade. E é tudo o que eu preciso pra me distrair dos fatos melancólicos que nos cercam.
- Você tem certeza? - ela perguntou surpresa.
- Sim. - respondi simplesmente.
- Falando em certezas, você vai mesmo embora Holly? - ela perguntou em um sussurro. Eu suspirei lentamente antes de responder.
- Vou, na manhã seguinte ao meu aniversário estarei pegando o primeiro vôo para os Estados Unidos.
Ela assentiu em silêncio. Eu fiquei indecisa se deveria perguntar sobre meu pai a ela nesse momento dificil, mas a indecisão sumiu assim que olhei para o porta retratos no criado mudo e vi uma foto deles dois abraçados.
- Mãe, o que você sabia sobre a vida do meu pai quando se casaram?
- Sinceramente? Muito pouco. Eu sabia sobre seu... "trabalho" é claro, porque eu o conheci durante uma de suas caçadas. - ela respondeu - Ele me salvou - ela acrescentou fechando os olhos, e eu pude ver uma lágrima perolada rolar pelo seu rosto. Instintivamente meus braços a envolveram em uma abraço que eu esperava que a reconfortasse.
- Ele me salvou duas vezes, e ambas lhe causaram algum mal. Uma delas tirou sua vida, como você bem sabe.
- Eu preciso salvar pessoas também mãe, mesmo que isso me custe a vida. É um trabalho espinhoso, mas que deve ser feito. Eu não quero sair nessa empreitada sabendo que você está brava comigo, ou algo assim.
- Então eu te dou a minha benção Holly. Vá e faça o que tiver que ser feito, salve pessoas, siga a estrada de seu pai, e que as estrelas zelem pelo seu caminho¹.
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A festa estava escandalosa e antiquada, como eu previ. Meus avós eram senhores conservadores e chatos que achavam que a adolescência era uma farsa, e que eu estava, na verdade, saindo da infância. Balões rosa e um bolo gigante das meninas super poderosas enfeitavam a mesa na sala de jantar. Eu só não tinha vomitado até agora, porque eu havia prometido pra minha mãe que eu me comportaria.
- Hey Holly, feliz 18 anos - uma voz rouca suave soou em meu ouvido. Rupert chegara, finalmente. Eu me virei e pulei em seu colo, e disse pountuando cada palavra com um beijo em sua bochecha:
- Rupert! Você veio! Eu estou tão feliz por ter alguém são nessa festa horrorosa! - ele ria delicadamente desvencilhando-se de meus braços.
- Claro que eu vim. Eu já botei suas malas no carro. Comprei as passagens e tudo está resolvido. Nós partimos amanhã bem cedo. Está bom pra você Holly? - ele perguntou sorrindo.
- É claro! Está ótimo!
- Está bem humorada pra quem está em uma festa com um bolo das meninas super poderosas hein? - eu revirei os olhos e o ignorei. Agora nem a tristeza da perda de Vince poderia me deixar mal. Tudo estava indo perfeitamente bem. Nós partiríamos e eu seguiria, afinal, o meu destino.
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¹ Expressão que faz parte da saga "A Herança". N.A.
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