A luz do sol incidia fracamente no vidro sujo da cozinha. Bill estava curvado sobre a maleta preta com fechos prateados que permanecera fechada por anos. Eu me aproximei hesitante.
- Papai? - perguntei timidamente.
- Sim querida - ele respondeu distraído, fechando a maleta rapidamente.
- O que tem nessa maleta?
- Nada de interessante para a minha pequena, só uns documentos.
- Papai? - tentei novamente. Meu pai suspirou ao se sentar em uma das cadeiras que circundavam a mesa, e fez sinal para que eu me aproximasse. Eu caminhei em sua direção e sentei em seu colo.
- Diga o que te aflige Holly-woo.
- Estou preocupada papai.
- Preocupada? - ele perguntou surpreso erguendo as sobrancelhas - Com o que pequenina?
- com você papai. Você não tem mais ensinado a mim e ao Vince. Você prometeu que ia nos ensinar. E você tem ido caçar e demora muito para voltar! – conclui, meus lábios inferiores formando um biquinho. Seu olhar entristeceu e ele parecia, de repente, apenas um senhor infeliz.
- Eu acho que você precisa saber, já está grandinha o suficiente para entender.
Eu esperei, ansiosa para descobrir o que estava acontecendo.
- Sua mãe está muito doente Holly-woo, e eu preciso ajudá-la. Você sabe que eu faria tudo por vocês.
Um barulho agudo interrompeu Bill, chamando a minha atenção. O som se assemelhava fracamente a um lamento infantil, mas era infinitamente mais incômodo, quase obsceno. Uma gargalhada fria escapou dos lábios de Bill e de seus olhos vazava, como de um farol, uma luz vermelha que me cegava. Os lamentos se tornavam mais pronunciados, a porta tremia como se uma turba enraivecida se aproximasse. A risada maquiavélica de Bill logo foi abafada, pois a porta rangia alucinadamente. As lágrimas caiam em cascata de meus olhos, mas o pânico me deixava muda. Com um barulho ensurdecedor a porta de abriu. Corpos retorcidos que exalavam o terrível cheiro adocicado da decomposição entravam na cozinha, o choro agonizante penetrava em meus ouvidos.
Eu chorava desesperadamente e subia na mesa para que não me alcançassem. Bill continuava rindo bobamente sentado na cadeira, o mar de corpos o engolindo devagar. Com a visão embaçada pelas lágrimas, não pude ver Bill pela última vez antes que ele ficasse totalmente imerso.
- Pai! – acordei gritando. Meus cabelos estavam grudados na minha testa úmida de suor. Puxei minhas pernas para perto e as abracei, ficando sentada na cama, mergulhada em um choro silencioso.
Bill foi o melhor pai que eu poderia ter. Eu era muito jovem quando ele morreu, mas tudo o que aprendi com ele, era o que me fortificava nos momentos de fraqueza ou insegurança. Ele nos treinava – a mim e ao Vince – todos os dias, porque ele queria que quando ele se fosse, nós o substituíssemos. Meu pai era um caçador, mas não do tipo que caça lebres ou raposas. Ele caçava demônios, criaturas sobrenaturais que assombravam silenciosamente as cidades.
Eu tinha 6 anos quando ele me contou sobre sua vida. Como eu era só uma criança, eu achei o máximo, mas hoje eu sei que não é nem de longe tão divertido quanto parecia. Minha mãe queria que eu esperasse chegar a maioridade para seguir a vida que fora escolhida para mim. A princípio, eu concordei com seus termos, mas a adolescência se arrastava vagarosamente pela minha vida, com suas dúvidas e incertezas inserindo-se a força em minha mente. Tudo parecia tão lento que quase me escapara o fato da adolescência ser só uma fase.
Meu aniversário se aproximava, e com ele ressurgiam as perguntas. O que eu deveria fazer quando chegasse a hora de agir? Eu não pegava em uma arma desde os 12 anos, não sabia se conseguiria atirar tão bem quantos antes. Eu precisava desabafar com alguém imparcial, não era mais capaz de ruminar esses pensamentos sozinha. O primeiro nome que me veio a mente foi Rupert. Mas será que eu conseguiria confiar meus segredos mais profundos a ele, sabendo que ele não confiava totalmente em mim?
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O refeitório estava lotado, como sempre, e logo foi se tornando insuportável ficar ali.
- Vamos Rup, lá fora com certeza está bem melhor – resmunguei novamente, mesmo sabendo que ele não iria me escutar. Linda Lavingston acabara de irromper pelo vão da porta, com seus longos cabelos esvoaçando cinematograficamente, e Rupert – como todos os garotos da escola – sempre entrava em uma espécie de transe na presença dela.
- Hey Mayburn – tentei novamente estalando os dedos na frente de seus olhos vidrados. Ao ouvir seu sobrenome, Rupert pareceu despertar.
- Ãhn... Ah! Desculpe Holly, eu estava...
- Enfeitiçado, sei – completei rindo – Acho que descobri a palavra que te faz acordar. Mayburn é um bom nome, combina com você.
Sua expressão me fez rir mais. Ele revirava os olhos teatralmente e fazia cara de tédio. Ainda rindo eu o puxei pela manga da camisa para fora do refeitório.
A brisa saudou-nos gentilmente acariciando a nossa pele, aliviando o calor infernal do interior da escola. Rupert me esperava com curiosidade. Eu decidi contar sobre o meu pai, mas não sabia exatamente como fazê-lo.
- Rup, eu não sei como começar – eu disse hesitante, despedaçando o copo descartável que estava em minhas mãos.
- Hmm... Você me disse ontem que era um segredo muito... “Secreto” – ele disse fazendo grandes aspas no ar ao dizer Secreto, me fazendo rir.
- Sim, bem secreto – concordei me sentando à sombra de uma árvore florida que ficava entre o lago artificial e o ginásio coberto da King’s High School.
- Sobre o que? Você? Vince? Meg?
- Meu pai.
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