Rupert
O sul se punha no horizonte que agora estava bem abaixo de nós, o vôo estava sendo tranquilo, mas eu podia ver a inquietação muda de Holly. Eu tinha que confessar que também não estava tão calmo quanto esperava que transparecesse. Será que Jack ficaria decepcionado com a evidente falta de jeito de Holly? Ela dizia ser boa com armas e tudo mais, mas eu não conseguia ver seus braçõs delicados segurando uma arma.
- Rupert - ela me chamou em um sussurro.
- Diga - respondi me inclinando de modo que pudesse olhar para ela.
- Eu estou com medo.
- Medo?
- Sim, medo de não ser boa, medo de manchar a memória de meu pai, medo de decepcionar pessoas... - ela disse e eu pude ver uma lágrima deslizar pelo seu rosto. Instintivamente levei minhas mãos ao seu rosto para limpar aquela lágrima.
- Para com isso Holly, você é ótima, não precisa se preucupar, você jamais manchará a memória de Bill, onde ele estiver ele está com muito orgulho da filha que você é.
Ela sorriu mas eu pude ver que ela ainda não estava convencida. Eu resolvi deixar ela pensar um pouco, talvez ela desistisse e quisesse voltar para Londres me poupando da humilhação que seria apresentar aquela menina frágil como a filha de Bill James. Eu sabia que era cruel pensar dessa maneira, mas era a verdade: enquanto ela não tivesse provado ser mesmo boa, eu não ia querer ela como minha parceira. Um peso morto era tudo que eu não precisava.
E tinha outra coisa que me preucupava. O que Ruby ia querer em troca de salvar minha vida? Eu detestava tratar com demônios, nunca era vantajoso para mim. "Jack vai saber o que fazer" pensei com firmeza. A voz da aeromoça anunciou o momento do pouso, chegou a hora.
-----------
Holly
Era agora, eu ia conhecer Jack, Lita e toda uma nova vida. Eu estava começando a me desesperar, eu estava a beira das lágrimas na verdade. Rupert esteve distante durante a viagem, e eu estava começando a achar que ele também não estava confiante em relação a mim. "Não seja boba, Rupert jamais perderia a fé em você" eu me repreendi. Eu respirei fundo e esperei o avião pousar com os olhos fechados.
- Vamos Holly, temos que descer - Rupert disse formalmente apontando para o bagageiro a cima de nós.
- Ok - respondi distraída.
Nós pegamos as malas do bagageiro e descemos do avião. Ao sair pelo portão de desembarque, eu logo vi um homem de mais ou menos 50 anos, meio calvo, com uma expressão forte no rosto, apoiado em uma begala trabalhada. Era Jack, isso estava óbvio. Mas quem era a garota loira ao seu lado? Rupert dissera que Lita era a irmã mais velha de Jack, e a garota devia ter a minha idade, apesar de ter cara de que já conhecera muitas coisas.
- Rupert - tentei chamá-lo discretamente - quem é ela?
Ele não me respondeu logo, percebi que ele estava tão surpreso quanto eu a respeito da presença da garota.
- Ruby. - ele disse mais para si mesmo. - Ruby - ele disse mais alto, agora de dirigindo à garota.
- E aí Mayburn, sentiu minha falta? - a garota, Ruby, disse em um tom irônico sorrindo. Rupert riu um pouco, mas a ignorou.
- Jack - ele disse aliviado e abraçou o velho.
- Olá moleque - disse Jack com uma voz rasgada, retribuindo o abraço.
- Jack, Ruby, essa é a Holly James - ele nos apresentou sem nem dirigir o olhar para mim.
- Oi - eu disse timidamente. Ruby se aproximou rapidamente e me deu um abraço caloroso.
- Olá querida, eu sou Ruby. Senti muitíssimo quando seu pai se foi, ele faz muita falta ao mundo.
- Ah, prazer, Holly. Ah... É, ele faz falta... - respondi ainda constrangida demais para falar algo concreto.
- Você não faz idéia garota, Bill foi um grande homem - Jack concordou com Ruby em sua voz ressonante. - Jack Kimpler - ele acrescentou estendendo a mão para mim. Eu apertei sua mão e balbuciei meu nome novamente.
- Onde está Lita, Jack? - Rupert perguntou aliviando meu constrangimento.
- Ficou em casa, aquela velha ranzinza. - Jack resmungou em resposta. - Aqui não é o melhor lugar para conversarmos, que tal pegarem suas malas e andarem rápido?
Nós assentimos e caminhamos para pegar nossas malas. Rupert não trocou nem uma palavra comigo durante o percurso. Eu estava ficando tão magoada que o nervosismo estava quase ficando em segundo plano. Quase.
--------
A casa de Jack ficava em um terreno na periferia da cidade. Era grande e espaçosa para quem via de fora, e por dentro podia se ver que cada espaço, que outrora estivera vazio, fora preenchido. Eu podia ver grandes desenhos nas paredes, passagens bíblicas pintadas e espostas no teto - como em uma igreja -, livros grossos e de aparência antiga apinhavam as estantes de madeira escura que estavam presentes em praticamente todos os lugares da casa. Era definitivamente a casa de um estudioso do mundo sobrenatural.
Rupert conversava animado com Ruby, e eu percebi com uma pontada de incômodo que eu estava com ciúme. Jack mancava a frente me guiando, até que parou em uma porta que estava fechada. Ele bateu toscamente e uma voz penetrante gritou algo ininteligível em resposta. Jack se virou para mim e murmurou em tom de conspiração.
- Não ligue para os comentários infelizes dessa velha está bem garota? Ela ladra mas no fundo é só uma mulher ranzinza.
Eu sorri e apenas concordei com a cabeça. A porta se abriu e uma mulher apareceu no vão. o meu primeiro pensamento quando a vi, foi que eu gostaria de estar conservada como ela quando chegasse a sua idade. Ela tinha os braços bem delineados por musculos compridos que estava presentes em todas as partes que estavam a mostra de seu corpo. Uma juba cor de palha envolvia um rosto já maculado por linhas fortes de expressão, e seus olhos duros estavam envoltos por cílios com uma camada grossa de rímel preto. Ela me avaliava com interesse e sem nenhuma cerimônia.
- Você é a garota James então. - não era uma pergunta, e a semelhança da voz de Lita com a do irmão me assustou um pouco.
- Holly James, muito prazer - me apresentei estendendo a mão. Ela apertou minha mãe com suas mãos de ferro.
- Lita Kimpler, o prazer é todo meu. Eu espero, pelo menos. - ela respondeu e sua risada ecoou pela casa vazia.
- Ok Lita, agora saia do meu caminho, minhas pernas estão me matando.
- Ah, seu velho rabugento, só sabe reclamar - a mulher retrucou friamente. - E vejo que essa demoniazinha imunda voltou a nossa casa não é?
- Ah mulher, cale-se. Já te expliquei a situação da nossa Ruby aqui, pode parar de implicar com ela?
- Vai Jack, defende ela, traga essas criaturas peçonhentas a nossa casa. Vai convidá-la para morar conosco para sempre agora é?
- Olha Lita - Ruby interviu antes que Jack pudesse responder - agora que Rupert chegou, não vai demorar muito e você vai estar livre de mim.
Lita só lançou um olhar de profundo desprezo a Ruby e voltou para o fogão. Eu percebi depois de um tempo que estávamos em uma cozinha.
- Moleque, mostre a casa para Holly. Faça algo de útil ao invés de só ficar aí se exibindo feito um pavão para Ruby. - Jack disse imperativamente a Rupert.
- Vamos - ele murmurou ao passar por mim.
- Podem deixar as malas aqui embaixo, depois a gente leva lá pra cima - Jack acrescentou por cima do ombro.
Rupert caminhava rapidamente pelos corredores, e eu tinha que quase correr para acompanhar seu passo. Ele subiu a escada que ficava perto da porta de entrada rapidamente e se dirigiu a um quarto no fim do corredor, aparentemente trancado.
- Esse é o quarto em que ninguém entra a menos que estaja acompanhado de Jack. Esse - e apontou para um quarto com a porta entreaberta a nossa esquerda - é o quarto que você vai ficar. Agora, suponha que estaja cansada, eu vou te dar um pouco de privacidade.
- Não. Eu quero conversar com você. - eu disse com firmeza. Ele suspirou com impaciência me lembrando o tratamento que ele dava a Jen, a garota burra da King's High School.
- Sobre o que você quer conversar?
- Por que você está agindo assim comigo?
- Sinceramente?
- Não, minta pra mim. Claro que sinceramente né.
- Eu cansei de você Holly, você e as suas bipolaridades, suas hipocrisisas, e suas fraquezas. Suas lamentações eternas sobre a sua "vida horrível". É isso. Minha obrigação era te trazer até Jack, agora você é o encargo dele. Agora se me dá licença, eu tenho negócio a tratar com a Ruby.
- Com um demônio? Eu achei que nós matassemos demônios.
- Você achou? Pois eu tenho uma novidade pra você garota, você não sabe de nada. Você é uma pessoa extremamente inútil no momento, e enquanto não aprender o que Jack tem a ensinar vai ser só um peso morto na equipe. Ruby, para seu conhecimento posterior, é importante para o que nós pretendemos fazer.
Suas palavras me machucaram de tal forma, que a única coisa que eu consegui fazer foi me virar com a maior dignidade que consegui reunir e entrar no quarto que ele havia me indicado. Eu não acreditava, ele me enganara. Não estava comigo em Londers porque gostava de mim, mas porque precisava me trazer para Jack. E ele sabia que eu jamais viria sozinha. Eu me senti traída, magoada, mas acima de tudo, ultrajada pela maneira com que Rupert falou comigo. Feriu-me tão fortemente ouví-lo, principalmente por saber que tudo aquilo era verdade.
By moving to London, Holly James embarks on a world of secrets and revenge, where love and loyalty are essential to her survival
segunda-feira, novembro 22, 2010
quarta-feira, novembro 10, 2010
Cápitulo 9.
O aeroporto estava apinhado de gente, mas chovia forte demais para que ficássemos fora dali. O vôo de Vince deveria ter chegado há cerca de uma hora. Meg voltava do guichê quando a voz insossa da mulher do aeroporto anunciou o que eu temia.
- O vôo WXZ 3748 teve complicações na pista de pouso. Recomendamos que os parentes dos passageiros de encaminhem ao portão de desembarque para facilitar o socorro.
A frieza na noticía me deu ainda mais raiva. Meus olhos marejados de lágrimas saíram de foco e os braços de Rupert me segurando com firmeza foram a última coisa que senti antes de mergulhar em uma escuridão angustiada.
---------
Rupert
- Holly vai ficar arrazada Meg, eu nem vou saber como dar a notícia.
- Rupert, eu te imploro fale com ela. Se ela me ver nesse estado...
- Está bem, mas espere pelo menos até que ela acorde. Na verdade, ela já deve suspeitar... - Meg se desmanchou em lágrimas novamente e eu ofereci meu abraço para confortá-la.
O avião de Vince caíra na pista de pouso e, misteriosamente, Vince e o piloto foram as únicas vítimas fatais. Eu iria conversar com Jack o mais rápido que pudesse. Não podia ser conincidência que num avião de 78 passageiros só 2 morressem, e justo esse dois. Mas agora eu tinha que falar com Holly, que como era muito apegada ao irmão, provavelmente entraria em pânico.
A porta do quarto dela se abriu e ela saiu com uma cara apática esfregando os olhos sonolenta.
- Mãe? O que houve? - ele perguntou se assustando com a situação. Meg lançou-me um último olhar suplicante antes de se retirar sem dizer nada.
- Rupert, o que está acontecendo? - ela tentou novamente.
- Bom... Qual foi a última coisa que você ouviu Holly? - comecei lentamente.
- Algo sobre... - ela se interrompeu e o choque tomou o lugar da apatia em seu rosto, sendo substituído pela compreensão, e então o que eu temia aconteceu: a dor acometeu seu lindo rosto e as lágrimas dela pareciam não ter fim. Ela se jogou em meus braços soluçante.
- Não... Isso não pode ter acontecido... Não com o meu Vince... - ela murmurava com o rosto enterrado em minha jaqueta já úmida. Eu a abraçava forte para tentar lhe mostrar que ela não estava sozinha, que eu estaria com ela sempre que ela precisasse.
-----------------
Holly
Meu mundo parecia estar desabando. Vince se fora, eu jamais teria alguém para confiar, alguém para conversar, alguém como ele. Eu sentia como se um pedaço de mim estivesse me deixando. Eu não podia acreditar, Vince morrera há menos de 5 horas, e eu já me sentia infeliz de uma maneira que eu não sabia explicar. Ele sempre fora meu amigo, meu irmão, meu confidente. Acho inclusive, que se eu não tivesse Rupert, eu me mataria de tanto desgosto.
- Holly, eu sei que é um momento terrível pra você, mas nós temos que conversar. - Rupert disse entrando no quarto após ter saído para falar com Jack no telefone.
- O que é?
- Jack tem suposições interessantes e bastante plausíveis sobre a morte do seu irmão.
- Suposições? O que? Ele morreu num acidente aéreo, quais são as possibilidades?
- A queda não poderia tê-lo matado. Jack acha que ele foi morto dentro do avião. E o piloto também, por isso o acidente.
Eu o fitava atônita, como assim? Assassinato? Teria algo a ver com a morte do meu pai? Definitivamente, eu precisava visitar o tal Jack, eu precisava de respostas.
- Rupert, nós precisamos ir pro Kansas. Eu não aguento mais esses segredos, eu preciso de respostas! - e antes que eu me desse conta, eu já estava gritando desesperada, as lágrimas de volta em meus olhos.
- Eu concordo Holly, mas procure se manter calma. Temos que esperar o seu aniversário. Mas não fique exasperada - ele acrescentou ao me ver tentar argumentar - só faltam 3 dias.
Eu suspirei vencida. Só 3 dias e eu estaria livre. Um cansaço profundo se abateu sobre mim, e eu pedi - um pouco bruscamente, confesso - que Rupert me desse um pouco de privacidade, pois eu estava exausta. Eu dormi quase instantaneamente, e quando acordei no dia seguinte, a densa realidade da morte de Vince caiu sobre mim. Eu teria que superar, se não acabaria enlouquecendo. E a melhor maneira de superar seria agir. Eu tentei me recompor antes de sair do quarto, para que não parecesse que eu passei a noite chorando - o que de fato aconteceu - e piorasse ainda mais o clima.
Encontrei minha mãe em seu quarto, sentada na cama ao telefone. Eu fiquei constrangida de vir falar com ela em busca de concelhos depois de ter sido tão grossa com ela, mas eu não tinha escolha. Eu bati na porta hesitante. Minha mãe levantou o olhar e murmurou uma desculpa apressada para desligar o telefone, fazendo sinal para que eu me aproximasse.
- Entre, entre querida. - ela disse com a voz ainda embargada. Eu entrei no quarto e me sentei ao seu lado na cama.
- Com quem você estava falando?
- Querida, eu sinto muito por...
- Eu não quero falar sobre isso. Com quem você estava falando mamãe? - tentei novamente ficando impaciente.
- Com seus avós. Mamãe acha que devemos fazer uma super festa para comemorar o seu aniversário. Mas na atual situação não acho que seja apropriado, e era disso que eu estava tentando convencê-la.
- Pois eu discordo. Provavelmente, Vince adoraria uma big festa para comemorar a minha entrada na maioridade. E é tudo o que eu preciso pra me distrair dos fatos melancólicos que nos cercam.
- Você tem certeza? - ela perguntou surpresa.
- Sim. - respondi simplesmente.
- Falando em certezas, você vai mesmo embora Holly? - ela perguntou em um sussurro. Eu suspirei lentamente antes de responder.
- Vou, na manhã seguinte ao meu aniversário estarei pegando o primeiro vôo para os Estados Unidos.
Ela assentiu em silêncio. Eu fiquei indecisa se deveria perguntar sobre meu pai a ela nesse momento dificil, mas a indecisão sumiu assim que olhei para o porta retratos no criado mudo e vi uma foto deles dois abraçados.
- Mãe, o que você sabia sobre a vida do meu pai quando se casaram?
- Sinceramente? Muito pouco. Eu sabia sobre seu... "trabalho" é claro, porque eu o conheci durante uma de suas caçadas. - ela respondeu - Ele me salvou - ela acrescentou fechando os olhos, e eu pude ver uma lágrima perolada rolar pelo seu rosto. Instintivamente meus braços a envolveram em uma abraço que eu esperava que a reconfortasse.
- Ele me salvou duas vezes, e ambas lhe causaram algum mal. Uma delas tirou sua vida, como você bem sabe.
- Eu preciso salvar pessoas também mãe, mesmo que isso me custe a vida. É um trabalho espinhoso, mas que deve ser feito. Eu não quero sair nessa empreitada sabendo que você está brava comigo, ou algo assim.
- Então eu te dou a minha benção Holly. Vá e faça o que tiver que ser feito, salve pessoas, siga a estrada de seu pai, e que as estrelas zelem pelo seu caminho¹.
-----------------
A festa estava escandalosa e antiquada, como eu previ. Meus avós eram senhores conservadores e chatos que achavam que a adolescência era uma farsa, e que eu estava, na verdade, saindo da infância. Balões rosa e um bolo gigante das meninas super poderosas enfeitavam a mesa na sala de jantar. Eu só não tinha vomitado até agora, porque eu havia prometido pra minha mãe que eu me comportaria.
- Hey Holly, feliz 18 anos - uma voz rouca suave soou em meu ouvido. Rupert chegara, finalmente. Eu me virei e pulei em seu colo, e disse pountuando cada palavra com um beijo em sua bochecha:
- Rupert! Você veio! Eu estou tão feliz por ter alguém são nessa festa horrorosa! - ele ria delicadamente desvencilhando-se de meus braços.
- Claro que eu vim. Eu já botei suas malas no carro. Comprei as passagens e tudo está resolvido. Nós partimos amanhã bem cedo. Está bom pra você Holly? - ele perguntou sorrindo.
- É claro! Está ótimo!
- Está bem humorada pra quem está em uma festa com um bolo das meninas super poderosas hein? - eu revirei os olhos e o ignorei. Agora nem a tristeza da perda de Vince poderia me deixar mal. Tudo estava indo perfeitamente bem. Nós partiríamos e eu seguiria, afinal, o meu destino.
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¹ Expressão que faz parte da saga "A Herança". N.A.
- O vôo WXZ 3748 teve complicações na pista de pouso. Recomendamos que os parentes dos passageiros de encaminhem ao portão de desembarque para facilitar o socorro.
A frieza na noticía me deu ainda mais raiva. Meus olhos marejados de lágrimas saíram de foco e os braços de Rupert me segurando com firmeza foram a última coisa que senti antes de mergulhar em uma escuridão angustiada.
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Rupert
- Holly vai ficar arrazada Meg, eu nem vou saber como dar a notícia.
- Rupert, eu te imploro fale com ela. Se ela me ver nesse estado...
- Está bem, mas espere pelo menos até que ela acorde. Na verdade, ela já deve suspeitar... - Meg se desmanchou em lágrimas novamente e eu ofereci meu abraço para confortá-la.
O avião de Vince caíra na pista de pouso e, misteriosamente, Vince e o piloto foram as únicas vítimas fatais. Eu iria conversar com Jack o mais rápido que pudesse. Não podia ser conincidência que num avião de 78 passageiros só 2 morressem, e justo esse dois. Mas agora eu tinha que falar com Holly, que como era muito apegada ao irmão, provavelmente entraria em pânico.
A porta do quarto dela se abriu e ela saiu com uma cara apática esfregando os olhos sonolenta.
- Mãe? O que houve? - ele perguntou se assustando com a situação. Meg lançou-me um último olhar suplicante antes de se retirar sem dizer nada.
- Rupert, o que está acontecendo? - ela tentou novamente.
- Bom... Qual foi a última coisa que você ouviu Holly? - comecei lentamente.
- Algo sobre... - ela se interrompeu e o choque tomou o lugar da apatia em seu rosto, sendo substituído pela compreensão, e então o que eu temia aconteceu: a dor acometeu seu lindo rosto e as lágrimas dela pareciam não ter fim. Ela se jogou em meus braços soluçante.
- Não... Isso não pode ter acontecido... Não com o meu Vince... - ela murmurava com o rosto enterrado em minha jaqueta já úmida. Eu a abraçava forte para tentar lhe mostrar que ela não estava sozinha, que eu estaria com ela sempre que ela precisasse.
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Holly
Meu mundo parecia estar desabando. Vince se fora, eu jamais teria alguém para confiar, alguém para conversar, alguém como ele. Eu sentia como se um pedaço de mim estivesse me deixando. Eu não podia acreditar, Vince morrera há menos de 5 horas, e eu já me sentia infeliz de uma maneira que eu não sabia explicar. Ele sempre fora meu amigo, meu irmão, meu confidente. Acho inclusive, que se eu não tivesse Rupert, eu me mataria de tanto desgosto.
- Holly, eu sei que é um momento terrível pra você, mas nós temos que conversar. - Rupert disse entrando no quarto após ter saído para falar com Jack no telefone.
- O que é?
- Jack tem suposições interessantes e bastante plausíveis sobre a morte do seu irmão.
- Suposições? O que? Ele morreu num acidente aéreo, quais são as possibilidades?
- A queda não poderia tê-lo matado. Jack acha que ele foi morto dentro do avião. E o piloto também, por isso o acidente.
Eu o fitava atônita, como assim? Assassinato? Teria algo a ver com a morte do meu pai? Definitivamente, eu precisava visitar o tal Jack, eu precisava de respostas.
- Rupert, nós precisamos ir pro Kansas. Eu não aguento mais esses segredos, eu preciso de respostas! - e antes que eu me desse conta, eu já estava gritando desesperada, as lágrimas de volta em meus olhos.
- Eu concordo Holly, mas procure se manter calma. Temos que esperar o seu aniversário. Mas não fique exasperada - ele acrescentou ao me ver tentar argumentar - só faltam 3 dias.
Eu suspirei vencida. Só 3 dias e eu estaria livre. Um cansaço profundo se abateu sobre mim, e eu pedi - um pouco bruscamente, confesso - que Rupert me desse um pouco de privacidade, pois eu estava exausta. Eu dormi quase instantaneamente, e quando acordei no dia seguinte, a densa realidade da morte de Vince caiu sobre mim. Eu teria que superar, se não acabaria enlouquecendo. E a melhor maneira de superar seria agir. Eu tentei me recompor antes de sair do quarto, para que não parecesse que eu passei a noite chorando - o que de fato aconteceu - e piorasse ainda mais o clima.
Encontrei minha mãe em seu quarto, sentada na cama ao telefone. Eu fiquei constrangida de vir falar com ela em busca de concelhos depois de ter sido tão grossa com ela, mas eu não tinha escolha. Eu bati na porta hesitante. Minha mãe levantou o olhar e murmurou uma desculpa apressada para desligar o telefone, fazendo sinal para que eu me aproximasse.
- Entre, entre querida. - ela disse com a voz ainda embargada. Eu entrei no quarto e me sentei ao seu lado na cama.
- Com quem você estava falando?
- Querida, eu sinto muito por...
- Eu não quero falar sobre isso. Com quem você estava falando mamãe? - tentei novamente ficando impaciente.
- Com seus avós. Mamãe acha que devemos fazer uma super festa para comemorar o seu aniversário. Mas na atual situação não acho que seja apropriado, e era disso que eu estava tentando convencê-la.
- Pois eu discordo. Provavelmente, Vince adoraria uma big festa para comemorar a minha entrada na maioridade. E é tudo o que eu preciso pra me distrair dos fatos melancólicos que nos cercam.
- Você tem certeza? - ela perguntou surpresa.
- Sim. - respondi simplesmente.
- Falando em certezas, você vai mesmo embora Holly? - ela perguntou em um sussurro. Eu suspirei lentamente antes de responder.
- Vou, na manhã seguinte ao meu aniversário estarei pegando o primeiro vôo para os Estados Unidos.
Ela assentiu em silêncio. Eu fiquei indecisa se deveria perguntar sobre meu pai a ela nesse momento dificil, mas a indecisão sumiu assim que olhei para o porta retratos no criado mudo e vi uma foto deles dois abraçados.
- Mãe, o que você sabia sobre a vida do meu pai quando se casaram?
- Sinceramente? Muito pouco. Eu sabia sobre seu... "trabalho" é claro, porque eu o conheci durante uma de suas caçadas. - ela respondeu - Ele me salvou - ela acrescentou fechando os olhos, e eu pude ver uma lágrima perolada rolar pelo seu rosto. Instintivamente meus braços a envolveram em uma abraço que eu esperava que a reconfortasse.
- Ele me salvou duas vezes, e ambas lhe causaram algum mal. Uma delas tirou sua vida, como você bem sabe.
- Eu preciso salvar pessoas também mãe, mesmo que isso me custe a vida. É um trabalho espinhoso, mas que deve ser feito. Eu não quero sair nessa empreitada sabendo que você está brava comigo, ou algo assim.
- Então eu te dou a minha benção Holly. Vá e faça o que tiver que ser feito, salve pessoas, siga a estrada de seu pai, e que as estrelas zelem pelo seu caminho¹.
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A festa estava escandalosa e antiquada, como eu previ. Meus avós eram senhores conservadores e chatos que achavam que a adolescência era uma farsa, e que eu estava, na verdade, saindo da infância. Balões rosa e um bolo gigante das meninas super poderosas enfeitavam a mesa na sala de jantar. Eu só não tinha vomitado até agora, porque eu havia prometido pra minha mãe que eu me comportaria.
- Hey Holly, feliz 18 anos - uma voz rouca suave soou em meu ouvido. Rupert chegara, finalmente. Eu me virei e pulei em seu colo, e disse pountuando cada palavra com um beijo em sua bochecha:
- Rupert! Você veio! Eu estou tão feliz por ter alguém são nessa festa horrorosa! - ele ria delicadamente desvencilhando-se de meus braços.
- Claro que eu vim. Eu já botei suas malas no carro. Comprei as passagens e tudo está resolvido. Nós partimos amanhã bem cedo. Está bom pra você Holly? - ele perguntou sorrindo.
- É claro! Está ótimo!
- Está bem humorada pra quem está em uma festa com um bolo das meninas super poderosas hein? - eu revirei os olhos e o ignorei. Agora nem a tristeza da perda de Vince poderia me deixar mal. Tudo estava indo perfeitamente bem. Nós partiríamos e eu seguiria, afinal, o meu destino.
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¹ Expressão que faz parte da saga "A Herança". N.A.
sexta-feira, novembro 05, 2010
Cápitulo 8.
- Seu pai? Você nunca fala nada sobre ele - ele contestou surpreso.
- Eu sei, mas essa noite eu sonhei com ele, e percebi que já não sou mais capaz de manter todos os meus segredos sozinha. Eu vou acabar enlouquecendo.
- Bom, então pode me contar. Eu juro que essa conversa jamais sairá daqui.
Eu deixei que as palavras fluíssem da minha boca distraídamente, pois eu sabia que se eu me desse conta de fato do que eu estava falando, eu provavelmente não continuaria, ou editaria alguma coisa. Eu contei tudo sobre Bill para ele. Contei sobre as caçadas, contei sobre os treinamentos, sobre sua morte e sobre a missão que ele me incumbira. Rupert ouvia tudo calado, com uma expressão impassível no rosto. Quando eu terminei, ele apenas disse.
- Eu já sabia.
- O que? O que você já sabia? - perguntei incrédula, minha voz subindo algumas oitavas devido a enorme surpresa.
- Eu já sabia tudo isso sobre o seu pai. Ele é muito conhecido entre os caçadores, o velho Bill.
- Entre os caçadores? Rupert, o que você sabe sobre caçadores? - eu não coneguia acreditar, ele conhecia a verdade, ele me ajudaria, não sentiria nojo de mim ou nada parecido.
- Eu sou um caçador Holly. Fui treinado praticamente a minha vida inteira. Eu fico surpreso que você também tenha sido. A informação que eu tinha era que o velho Bill escondeu da família seu segredo até o fim de sua vida.
- Bom, na verdade não. Ele me contou quando eu tinha 6 anos. Mas você chegou a conhecê-lo? Quem te treinou? Por que você não me contou nada antes? Você já sabia sobre o meu pai? - as perguntas saiam desenfreadas por meus lábios. Durante as horas seguintes, Rupert me contou tudo sobre a sua vida como caçador.
Ele fora treinado por dois caçadores - que foram amigos de meu pai - Jack e Lita. Seu pai, Carl Mayburn - também caçador - foi morto por um trickster quando ele era apenas um garoto, 7 anos de acordo com suas memórias. Ele conheceu meu pai de relance em um bar frequentado por caçadores, o Harvelle's RoadHouse, e foi instruído por Jack a não comentar nada comigo sobre meu pai. A surpresa logo deu lugar a segurança, agora eu sabia que eu não estava sozinha. Agora eu sabia que quando chegasse a hora de agir, Rupert estaria comigo.
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A lua já irradiava sua luz branca sobre a cidade de Londres, a neve caia fraca pelas ruas sombrias. Eu já estava no meu quarto na pensão, com a companhia quase eterna de Rupert. As descobertas da tarde, tinham nos levado a pensar sobre um futuro inelutável que já não estava mais tão distante, já que o meu aniversário de 18 anos ia acontecer em 10 dias.
- Assim que eu atingir a maioridade nós compramos nossas passagens para os EUA, para que eu possa aprender ainda mais coisas com Jack. Assim eu serei perfeitamente capaz de seguir a vida do meu pai, selando assim o meu destino. É isso né? - repassei o plano que nós elaboramos durante a tarde.
- Exato. Eu liguei para Jack hoje mais cedo, e ele disse que ficará encantado em nos receber.
- Duvido que ele tenha dito que ficaria encantado em nos receber - retruquei me lembrando dos comentários do Rupert sobre o gênio difícil de Jack.
- Ok, ele disse algo como "Antes tarde do que nunca hein moleque" - ele respondeu imitando Jack. Eu ria de sua brincadeira, quando eu senti a atmosfera do quarto mudando sutilmente. Rupert se inclinou em minha direção, seus olhos fixos nos meus, seu sorriso estonteante. Entendendo sua intenção, eu o censurei com um aceno de cabeça.
- Rup... - comecei constrangida, mas seus lábios encostaram nos meus me impedindo de continuar. Eu virei o rosto, e tive medo de tornar a olhar para ele, pois sabia que o desapontamento desfigurava o rosto impecável de Rupert, deixando-o vulnerável como uma criança.
- Por favor Rupert, nós já conversamos sobre isso.
- Mas eu não entendo o que o fato de nós decidirmos trabalhar juntos interfere na nossa relação.
- Ah, fala sério... - resmunguei revirando os olhos - Será que eu já não te dei razões o suficiente? Você realmente quer abordar esse assunto de novo? Que coisa maçante man.
Ele suspirou mas não retrucou. Eu detestava fazer aquilo com ele. E depois de tantos dias, era estranho não tratá-lo mais como namorado. Mas apesar dele fingir não entender, nós havíamos entrado em um acordo quando decidimos ser parceiros nesse lance de caçadores. Nossa relação ia ser fraternal, e não conjugal - apesar do termo ser absurdamente exagerado .
- Ok, desculpa Holly, foi mal. É sério, eu entendi o que você disse hoje mais cedo, e concordo. Não vou mais fazer isso ok?
Eu o abracei sem responder. Será que em algum lugar do planeta poderia existir um cara mais perfeito que Rupert? Eu duvidava muito. A porta se abriu nos sobressaltando.
- E eu posso saber o que a minha filhinha ficou fazendo a tarde inteira fechada nesse quarto? - minha mãe entrou de costas carregando uma bandeja cheia de frutas. Ela insistia em cuidar da minha alimentação, coisa que eu não reclamava, pois sabia que ele estava certa. Se ninguém cuidasse daquilo pra mim, eu viveria a base de junk foods. Ao se virar e ver Rupert, seu sorriso sumiu.
- Ah, olá Rupert, você está aqui. - ela disse friamente.
- Ãhn... Olá sra. James. Holly eu vou indo, amanhã a gente se vê ok? - ele disse se levantando - Qualquer coisa me liga - acrescentou com um sorriso.
- Claro, ligarei - respondi rindo. Rupert saiu do quarto caminhando rápido, fechando a porta ao passar. A expressão de censura era forte em meu rosto.
- Por que você falou com ele assim mãe?
- Por que? Você ainda tem coragem de perguntar? Desde que chegamos aqui você só fica com esse menino, não dá mais atenção pra sua velha mãe.
- Ah, fala sério mãe. Você espera que eu fique conversando com você sobre a escola? Daqui a 10 dias eu estarei indo embora. Vá se acostumando.
- O que você quer dizer com isso mocinha? Vai embora? Pra onde? Com quem? Com que dinheiro hein?
Eu fechei meus olhos, respirando fundo e contando a té dez devagar. Como meu pai aguentou a minha mãe por 20 anos eu não sabia, eu não a aguentava convivendo com ela por 17!
- Eu vou voltar pros Estados Unidos, com Rupert, nós vamos atrás de um cara chamado Jack que vai concluir meu "treinamento" para que eu possa seguir a minha vida. E meu pai deixou dinheiro pra mim, que vai estar disponível somente para mim no momento que eu fizer 18 anos.
- Você não vai embora Holly. Eu não vou permitir. Eu não vou permitir! - minha mãe disse, as veias de sua testa tão pronunciadas que eu achei iam explodir. Ela saiu do quarto deixando a bandeja de frutas caída perto da porta. Eu desabei na cama, e ignorando a forte rebeldia que se instaurava em meu peito, eu fechei os olhos e dormi.
- Eu sei, mas essa noite eu sonhei com ele, e percebi que já não sou mais capaz de manter todos os meus segredos sozinha. Eu vou acabar enlouquecendo.
- Bom, então pode me contar. Eu juro que essa conversa jamais sairá daqui.
Eu deixei que as palavras fluíssem da minha boca distraídamente, pois eu sabia que se eu me desse conta de fato do que eu estava falando, eu provavelmente não continuaria, ou editaria alguma coisa. Eu contei tudo sobre Bill para ele. Contei sobre as caçadas, contei sobre os treinamentos, sobre sua morte e sobre a missão que ele me incumbira. Rupert ouvia tudo calado, com uma expressão impassível no rosto. Quando eu terminei, ele apenas disse.
- Eu já sabia.
- O que? O que você já sabia? - perguntei incrédula, minha voz subindo algumas oitavas devido a enorme surpresa.
- Eu já sabia tudo isso sobre o seu pai. Ele é muito conhecido entre os caçadores, o velho Bill.
- Entre os caçadores? Rupert, o que você sabe sobre caçadores? - eu não coneguia acreditar, ele conhecia a verdade, ele me ajudaria, não sentiria nojo de mim ou nada parecido.
- Eu sou um caçador Holly. Fui treinado praticamente a minha vida inteira. Eu fico surpreso que você também tenha sido. A informação que eu tinha era que o velho Bill escondeu da família seu segredo até o fim de sua vida.
- Bom, na verdade não. Ele me contou quando eu tinha 6 anos. Mas você chegou a conhecê-lo? Quem te treinou? Por que você não me contou nada antes? Você já sabia sobre o meu pai? - as perguntas saiam desenfreadas por meus lábios. Durante as horas seguintes, Rupert me contou tudo sobre a sua vida como caçador.
Ele fora treinado por dois caçadores - que foram amigos de meu pai - Jack e Lita. Seu pai, Carl Mayburn - também caçador - foi morto por um trickster quando ele era apenas um garoto, 7 anos de acordo com suas memórias. Ele conheceu meu pai de relance em um bar frequentado por caçadores, o Harvelle's RoadHouse, e foi instruído por Jack a não comentar nada comigo sobre meu pai. A surpresa logo deu lugar a segurança, agora eu sabia que eu não estava sozinha. Agora eu sabia que quando chegasse a hora de agir, Rupert estaria comigo.
-----------
A lua já irradiava sua luz branca sobre a cidade de Londres, a neve caia fraca pelas ruas sombrias. Eu já estava no meu quarto na pensão, com a companhia quase eterna de Rupert. As descobertas da tarde, tinham nos levado a pensar sobre um futuro inelutável que já não estava mais tão distante, já que o meu aniversário de 18 anos ia acontecer em 10 dias.
- Assim que eu atingir a maioridade nós compramos nossas passagens para os EUA, para que eu possa aprender ainda mais coisas com Jack. Assim eu serei perfeitamente capaz de seguir a vida do meu pai, selando assim o meu destino. É isso né? - repassei o plano que nós elaboramos durante a tarde.
- Exato. Eu liguei para Jack hoje mais cedo, e ele disse que ficará encantado em nos receber.
- Duvido que ele tenha dito que ficaria encantado em nos receber - retruquei me lembrando dos comentários do Rupert sobre o gênio difícil de Jack.
- Ok, ele disse algo como "Antes tarde do que nunca hein moleque" - ele respondeu imitando Jack. Eu ria de sua brincadeira, quando eu senti a atmosfera do quarto mudando sutilmente. Rupert se inclinou em minha direção, seus olhos fixos nos meus, seu sorriso estonteante. Entendendo sua intenção, eu o censurei com um aceno de cabeça.
- Rup... - comecei constrangida, mas seus lábios encostaram nos meus me impedindo de continuar. Eu virei o rosto, e tive medo de tornar a olhar para ele, pois sabia que o desapontamento desfigurava o rosto impecável de Rupert, deixando-o vulnerável como uma criança.
- Por favor Rupert, nós já conversamos sobre isso.
- Mas eu não entendo o que o fato de nós decidirmos trabalhar juntos interfere na nossa relação.
- Ah, fala sério... - resmunguei revirando os olhos - Será que eu já não te dei razões o suficiente? Você realmente quer abordar esse assunto de novo? Que coisa maçante man.
Ele suspirou mas não retrucou. Eu detestava fazer aquilo com ele. E depois de tantos dias, era estranho não tratá-lo mais como namorado. Mas apesar dele fingir não entender, nós havíamos entrado em um acordo quando decidimos ser parceiros nesse lance de caçadores. Nossa relação ia ser fraternal, e não conjugal - apesar do termo ser absurdamente exagerado .
- Ok, desculpa Holly, foi mal. É sério, eu entendi o que você disse hoje mais cedo, e concordo. Não vou mais fazer isso ok?
Eu o abracei sem responder. Será que em algum lugar do planeta poderia existir um cara mais perfeito que Rupert? Eu duvidava muito. A porta se abriu nos sobressaltando.
- E eu posso saber o que a minha filhinha ficou fazendo a tarde inteira fechada nesse quarto? - minha mãe entrou de costas carregando uma bandeja cheia de frutas. Ela insistia em cuidar da minha alimentação, coisa que eu não reclamava, pois sabia que ele estava certa. Se ninguém cuidasse daquilo pra mim, eu viveria a base de junk foods. Ao se virar e ver Rupert, seu sorriso sumiu.
- Ah, olá Rupert, você está aqui. - ela disse friamente.
- Ãhn... Olá sra. James. Holly eu vou indo, amanhã a gente se vê ok? - ele disse se levantando - Qualquer coisa me liga - acrescentou com um sorriso.
- Claro, ligarei - respondi rindo. Rupert saiu do quarto caminhando rápido, fechando a porta ao passar. A expressão de censura era forte em meu rosto.
- Por que você falou com ele assim mãe?
- Por que? Você ainda tem coragem de perguntar? Desde que chegamos aqui você só fica com esse menino, não dá mais atenção pra sua velha mãe.
- Ah, fala sério mãe. Você espera que eu fique conversando com você sobre a escola? Daqui a 10 dias eu estarei indo embora. Vá se acostumando.
- O que você quer dizer com isso mocinha? Vai embora? Pra onde? Com quem? Com que dinheiro hein?
Eu fechei meus olhos, respirando fundo e contando a té dez devagar. Como meu pai aguentou a minha mãe por 20 anos eu não sabia, eu não a aguentava convivendo com ela por 17!
- Eu vou voltar pros Estados Unidos, com Rupert, nós vamos atrás de um cara chamado Jack que vai concluir meu "treinamento" para que eu possa seguir a minha vida. E meu pai deixou dinheiro pra mim, que vai estar disponível somente para mim no momento que eu fizer 18 anos.
- Você não vai embora Holly. Eu não vou permitir. Eu não vou permitir! - minha mãe disse, as veias de sua testa tão pronunciadas que eu achei iam explodir. Ela saiu do quarto deixando a bandeja de frutas caída perto da porta. Eu desabei na cama, e ignorando a forte rebeldia que se instaurava em meu peito, eu fechei os olhos e dormi.
quinta-feira, novembro 04, 2010
Capítulo 7.
A luz do sol incidia fracamente no vidro sujo da cozinha. Bill estava curvado sobre a maleta preta com fechos prateados que permanecera fechada por anos. Eu me aproximei hesitante.
- Papai? - perguntei timidamente.
- Sim querida - ele respondeu distraído, fechando a maleta rapidamente.
- O que tem nessa maleta?
- Nada de interessante para a minha pequena, só uns documentos.
- Papai? - tentei novamente. Meu pai suspirou ao se sentar em uma das cadeiras que circundavam a mesa, e fez sinal para que eu me aproximasse. Eu caminhei em sua direção e sentei em seu colo.
- Diga o que te aflige Holly-woo.
- Estou preocupada papai.
- Preocupada? - ele perguntou surpreso erguendo as sobrancelhas - Com o que pequenina?
- com você papai. Você não tem mais ensinado a mim e ao Vince. Você prometeu que ia nos ensinar. E você tem ido caçar e demora muito para voltar! – conclui, meus lábios inferiores formando um biquinho. Seu olhar entristeceu e ele parecia, de repente, apenas um senhor infeliz.
- Eu acho que você precisa saber, já está grandinha o suficiente para entender.
Eu esperei, ansiosa para descobrir o que estava acontecendo.
- Sua mãe está muito doente Holly-woo, e eu preciso ajudá-la. Você sabe que eu faria tudo por vocês.
Um barulho agudo interrompeu Bill, chamando a minha atenção. O som se assemelhava fracamente a um lamento infantil, mas era infinitamente mais incômodo, quase obsceno. Uma gargalhada fria escapou dos lábios de Bill e de seus olhos vazava, como de um farol, uma luz vermelha que me cegava. Os lamentos se tornavam mais pronunciados, a porta tremia como se uma turba enraivecida se aproximasse. A risada maquiavélica de Bill logo foi abafada, pois a porta rangia alucinadamente. As lágrimas caiam em cascata de meus olhos, mas o pânico me deixava muda. Com um barulho ensurdecedor a porta de abriu. Corpos retorcidos que exalavam o terrível cheiro adocicado da decomposição entravam na cozinha, o choro agonizante penetrava em meus ouvidos.
Eu chorava desesperadamente e subia na mesa para que não me alcançassem. Bill continuava rindo bobamente sentado na cadeira, o mar de corpos o engolindo devagar. Com a visão embaçada pelas lágrimas, não pude ver Bill pela última vez antes que ele ficasse totalmente imerso.
- Pai! – acordei gritando. Meus cabelos estavam grudados na minha testa úmida de suor. Puxei minhas pernas para perto e as abracei, ficando sentada na cama, mergulhada em um choro silencioso.
Bill foi o melhor pai que eu poderia ter. Eu era muito jovem quando ele morreu, mas tudo o que aprendi com ele, era o que me fortificava nos momentos de fraqueza ou insegurança. Ele nos treinava – a mim e ao Vince – todos os dias, porque ele queria que quando ele se fosse, nós o substituíssemos. Meu pai era um caçador, mas não do tipo que caça lebres ou raposas. Ele caçava demônios, criaturas sobrenaturais que assombravam silenciosamente as cidades.
Eu tinha 6 anos quando ele me contou sobre sua vida. Como eu era só uma criança, eu achei o máximo, mas hoje eu sei que não é nem de longe tão divertido quanto parecia. Minha mãe queria que eu esperasse chegar a maioridade para seguir a vida que fora escolhida para mim. A princípio, eu concordei com seus termos, mas a adolescência se arrastava vagarosamente pela minha vida, com suas dúvidas e incertezas inserindo-se a força em minha mente. Tudo parecia tão lento que quase me escapara o fato da adolescência ser só uma fase.
Meu aniversário se aproximava, e com ele ressurgiam as perguntas. O que eu deveria fazer quando chegasse a hora de agir? Eu não pegava em uma arma desde os 12 anos, não sabia se conseguiria atirar tão bem quantos antes. Eu precisava desabafar com alguém imparcial, não era mais capaz de ruminar esses pensamentos sozinha. O primeiro nome que me veio a mente foi Rupert. Mas será que eu conseguiria confiar meus segredos mais profundos a ele, sabendo que ele não confiava totalmente em mim?
-------
O refeitório estava lotado, como sempre, e logo foi se tornando insuportável ficar ali.
- Vamos Rup, lá fora com certeza está bem melhor – resmunguei novamente, mesmo sabendo que ele não iria me escutar. Linda Lavingston acabara de irromper pelo vão da porta, com seus longos cabelos esvoaçando cinematograficamente, e Rupert – como todos os garotos da escola – sempre entrava em uma espécie de transe na presença dela.
- Hey Mayburn – tentei novamente estalando os dedos na frente de seus olhos vidrados. Ao ouvir seu sobrenome, Rupert pareceu despertar.
- Ãhn... Ah! Desculpe Holly, eu estava...
- Enfeitiçado, sei – completei rindo – Acho que descobri a palavra que te faz acordar. Mayburn é um bom nome, combina com você.
Sua expressão me fez rir mais. Ele revirava os olhos teatralmente e fazia cara de tédio. Ainda rindo eu o puxei pela manga da camisa para fora do refeitório.
A brisa saudou-nos gentilmente acariciando a nossa pele, aliviando o calor infernal do interior da escola. Rupert me esperava com curiosidade. Eu decidi contar sobre o meu pai, mas não sabia exatamente como fazê-lo.
- Rup, eu não sei como começar – eu disse hesitante, despedaçando o copo descartável que estava em minhas mãos.
- Hmm... Você me disse ontem que era um segredo muito... “Secreto” – ele disse fazendo grandes aspas no ar ao dizer Secreto, me fazendo rir.
- Sim, bem secreto – concordei me sentando à sombra de uma árvore florida que ficava entre o lago artificial e o ginásio coberto da King’s High School.
- Sobre o que? Você? Vince? Meg?
- Meu pai.
- Papai? - perguntei timidamente.
- Sim querida - ele respondeu distraído, fechando a maleta rapidamente.
- O que tem nessa maleta?
- Nada de interessante para a minha pequena, só uns documentos.
- Papai? - tentei novamente. Meu pai suspirou ao se sentar em uma das cadeiras que circundavam a mesa, e fez sinal para que eu me aproximasse. Eu caminhei em sua direção e sentei em seu colo.
- Diga o que te aflige Holly-woo.
- Estou preocupada papai.
- Preocupada? - ele perguntou surpreso erguendo as sobrancelhas - Com o que pequenina?
- com você papai. Você não tem mais ensinado a mim e ao Vince. Você prometeu que ia nos ensinar. E você tem ido caçar e demora muito para voltar! – conclui, meus lábios inferiores formando um biquinho. Seu olhar entristeceu e ele parecia, de repente, apenas um senhor infeliz.
- Eu acho que você precisa saber, já está grandinha o suficiente para entender.
Eu esperei, ansiosa para descobrir o que estava acontecendo.
- Sua mãe está muito doente Holly-woo, e eu preciso ajudá-la. Você sabe que eu faria tudo por vocês.
Um barulho agudo interrompeu Bill, chamando a minha atenção. O som se assemelhava fracamente a um lamento infantil, mas era infinitamente mais incômodo, quase obsceno. Uma gargalhada fria escapou dos lábios de Bill e de seus olhos vazava, como de um farol, uma luz vermelha que me cegava. Os lamentos se tornavam mais pronunciados, a porta tremia como se uma turba enraivecida se aproximasse. A risada maquiavélica de Bill logo foi abafada, pois a porta rangia alucinadamente. As lágrimas caiam em cascata de meus olhos, mas o pânico me deixava muda. Com um barulho ensurdecedor a porta de abriu. Corpos retorcidos que exalavam o terrível cheiro adocicado da decomposição entravam na cozinha, o choro agonizante penetrava em meus ouvidos.
Eu chorava desesperadamente e subia na mesa para que não me alcançassem. Bill continuava rindo bobamente sentado na cadeira, o mar de corpos o engolindo devagar. Com a visão embaçada pelas lágrimas, não pude ver Bill pela última vez antes que ele ficasse totalmente imerso.
- Pai! – acordei gritando. Meus cabelos estavam grudados na minha testa úmida de suor. Puxei minhas pernas para perto e as abracei, ficando sentada na cama, mergulhada em um choro silencioso.
Bill foi o melhor pai que eu poderia ter. Eu era muito jovem quando ele morreu, mas tudo o que aprendi com ele, era o que me fortificava nos momentos de fraqueza ou insegurança. Ele nos treinava – a mim e ao Vince – todos os dias, porque ele queria que quando ele se fosse, nós o substituíssemos. Meu pai era um caçador, mas não do tipo que caça lebres ou raposas. Ele caçava demônios, criaturas sobrenaturais que assombravam silenciosamente as cidades.
Eu tinha 6 anos quando ele me contou sobre sua vida. Como eu era só uma criança, eu achei o máximo, mas hoje eu sei que não é nem de longe tão divertido quanto parecia. Minha mãe queria que eu esperasse chegar a maioridade para seguir a vida que fora escolhida para mim. A princípio, eu concordei com seus termos, mas a adolescência se arrastava vagarosamente pela minha vida, com suas dúvidas e incertezas inserindo-se a força em minha mente. Tudo parecia tão lento que quase me escapara o fato da adolescência ser só uma fase.
Meu aniversário se aproximava, e com ele ressurgiam as perguntas. O que eu deveria fazer quando chegasse a hora de agir? Eu não pegava em uma arma desde os 12 anos, não sabia se conseguiria atirar tão bem quantos antes. Eu precisava desabafar com alguém imparcial, não era mais capaz de ruminar esses pensamentos sozinha. O primeiro nome que me veio a mente foi Rupert. Mas será que eu conseguiria confiar meus segredos mais profundos a ele, sabendo que ele não confiava totalmente em mim?
-------
O refeitório estava lotado, como sempre, e logo foi se tornando insuportável ficar ali.
- Vamos Rup, lá fora com certeza está bem melhor – resmunguei novamente, mesmo sabendo que ele não iria me escutar. Linda Lavingston acabara de irromper pelo vão da porta, com seus longos cabelos esvoaçando cinematograficamente, e Rupert – como todos os garotos da escola – sempre entrava em uma espécie de transe na presença dela.
- Hey Mayburn – tentei novamente estalando os dedos na frente de seus olhos vidrados. Ao ouvir seu sobrenome, Rupert pareceu despertar.
- Ãhn... Ah! Desculpe Holly, eu estava...
- Enfeitiçado, sei – completei rindo – Acho que descobri a palavra que te faz acordar. Mayburn é um bom nome, combina com você.
Sua expressão me fez rir mais. Ele revirava os olhos teatralmente e fazia cara de tédio. Ainda rindo eu o puxei pela manga da camisa para fora do refeitório.
A brisa saudou-nos gentilmente acariciando a nossa pele, aliviando o calor infernal do interior da escola. Rupert me esperava com curiosidade. Eu decidi contar sobre o meu pai, mas não sabia exatamente como fazê-lo.
- Rup, eu não sei como começar – eu disse hesitante, despedaçando o copo descartável que estava em minhas mãos.
- Hmm... Você me disse ontem que era um segredo muito... “Secreto” – ele disse fazendo grandes aspas no ar ao dizer Secreto, me fazendo rir.
- Sim, bem secreto – concordei me sentando à sombra de uma árvore florida que ficava entre o lago artificial e o ginásio coberto da King’s High School.
- Sobre o que? Você? Vince? Meg?
- Meu pai.
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