segunda-feira, novembro 22, 2010

Capítulo 10.

Rupert

O sul se punha no horizonte que agora estava bem abaixo de nós, o vôo estava sendo tranquilo, mas eu podia ver a inquietação muda de Holly. Eu tinha que confessar que também não estava tão calmo quanto esperava que transparecesse. Será que Jack ficaria decepcionado com a evidente falta de jeito de Holly? Ela dizia ser boa com armas e tudo mais, mas eu não conseguia ver seus braçõs delicados segurando uma arma.
- Rupert - ela me chamou em um sussurro.
- Diga - respondi me inclinando de modo que pudesse olhar para ela.
- Eu estou com medo.
- Medo?
- Sim, medo de não ser boa, medo de manchar a memória de meu pai, medo de decepcionar pessoas... - ela disse e eu pude ver uma lágrima deslizar pelo seu rosto. Instintivamente levei minhas mãos ao seu rosto para limpar aquela lágrima.
- Para com isso Holly, você é ótima, não precisa se preucupar, você jamais manchará a memória de Bill, onde ele estiver ele está com muito orgulho da filha que você é.
Ela sorriu mas eu pude ver que ela ainda não estava convencida. Eu resolvi deixar ela pensar um pouco, talvez ela desistisse e quisesse voltar para Londres me poupando da humilhação que seria apresentar aquela menina frágil como a filha de Bill James. Eu sabia que era cruel pensar dessa maneira, mas era a verdade: enquanto ela não tivesse provado ser mesmo boa, eu não ia querer ela como minha parceira. Um peso morto era tudo que eu não precisava.
E tinha outra coisa que me preucupava. O que Ruby ia querer em troca de salvar minha vida? Eu detestava tratar com demônios, nunca era vantajoso para mim. "Jack vai saber o que fazer" pensei com firmeza. A voz da aeromoça anunciou o momento do pouso, chegou a hora.

-----------

Holly

Era agora, eu ia conhecer Jack, Lita e toda uma nova vida. Eu estava começando a me desesperar, eu estava a beira das lágrimas na verdade. Rupert esteve distante durante a viagem, e eu estava começando a achar que ele também não estava confiante em relação a mim. "Não seja boba, Rupert jamais perderia a fé em você" eu me repreendi. Eu respirei fundo e esperei o avião pousar com os olhos fechados.
- Vamos Holly, temos que descer - Rupert disse formalmente apontando para o bagageiro a cima de nós.
- Ok - respondi distraída.
Nós pegamos as malas do bagageiro e descemos do avião. Ao sair pelo portão de desembarque, eu logo vi um homem de mais ou menos 50 anos, meio calvo, com uma expressão forte no rosto, apoiado em uma begala trabalhada. Era Jack, isso estava óbvio. Mas quem era a garota loira ao seu lado? Rupert dissera que Lita era a irmã mais velha de Jack, e a garota devia ter a minha idade, apesar de ter cara de que já conhecera muitas coisas.
- Rupert - tentei chamá-lo discretamente - quem é ela?
Ele não me respondeu logo, percebi que ele estava tão surpreso quanto eu a respeito da presença da garota.
- Ruby. - ele disse mais para si mesmo. - Ruby - ele disse mais alto, agora de dirigindo à garota.
- E aí Mayburn, sentiu minha falta? - a garota, Ruby, disse em um tom irônico sorrindo. Rupert riu um pouco, mas a ignorou.
- Jack - ele disse aliviado e abraçou o velho.
- Olá moleque - disse Jack com uma voz rasgada, retribuindo o abraço.
- Jack, Ruby, essa é a Holly James - ele nos apresentou sem nem dirigir o olhar para mim.
- Oi - eu disse timidamente. Ruby se aproximou rapidamente e me deu um abraço caloroso.
- Olá querida, eu sou Ruby. Senti muitíssimo quando seu pai se foi, ele faz muita falta ao mundo.
- Ah, prazer, Holly. Ah... É, ele faz falta... - respondi ainda constrangida demais para falar algo concreto.
- Você não faz idéia garota, Bill foi um grande homem - Jack concordou com Ruby em sua voz ressonante. - Jack Kimpler - ele acrescentou estendendo a mão para mim. Eu apertei sua mão e balbuciei meu nome novamente.
- Onde está Lita, Jack? - Rupert perguntou aliviando meu constrangimento.
- Ficou em casa, aquela velha ranzinza. - Jack resmungou em resposta. - Aqui não é o melhor lugar para conversarmos, que tal pegarem suas malas e andarem rápido?
Nós assentimos e caminhamos para pegar nossas malas. Rupert não trocou nem uma palavra comigo durante o percurso. Eu estava ficando tão magoada que o nervosismo estava quase ficando em segundo plano. Quase.

--------

A casa de Jack ficava em um terreno na periferia da cidade. Era grande e espaçosa para quem via de fora, e por dentro podia se ver que cada espaço, que outrora estivera vazio, fora preenchido. Eu podia ver grandes desenhos nas paredes, passagens bíblicas pintadas e espostas no teto - como em uma igreja -, livros grossos e de aparência antiga apinhavam as estantes de madeira escura que estavam presentes em praticamente todos os lugares da casa. Era definitivamente a casa de um estudioso do mundo sobrenatural.
Rupert conversava animado com Ruby, e eu percebi com uma pontada de incômodo que eu estava com ciúme. Jack mancava a frente me guiando, até que parou em uma porta que estava fechada. Ele bateu toscamente e uma voz penetrante gritou algo ininteligível em resposta. Jack se virou para mim e murmurou em tom de conspiração.
- Não ligue para os comentários infelizes dessa velha está bem garota? Ela ladra mas no fundo é só uma mulher ranzinza.
Eu sorri e apenas concordei com a cabeça. A porta se abriu e uma mulher apareceu no vão. o meu primeiro pensamento quando a vi, foi que eu gostaria de estar conservada como ela quando chegasse a sua idade. Ela tinha os braços bem delineados por musculos compridos que estava presentes em todas as partes que estavam a mostra de seu corpo. Uma juba cor de palha envolvia um rosto já maculado por linhas fortes de expressão, e seus olhos duros estavam envoltos por cílios com uma camada grossa de rímel preto. Ela me avaliava com interesse e sem nenhuma cerimônia.
- Você é a garota James então. - não era uma pergunta, e a semelhança da voz de Lita com a do irmão me assustou um pouco.
- Holly James, muito prazer - me apresentei estendendo a mão. Ela apertou minha mãe com suas mãos de ferro.
- Lita Kimpler, o prazer é todo meu. Eu espero, pelo menos. - ela respondeu e sua risada ecoou pela casa vazia.
- Ok Lita, agora saia do meu caminho, minhas pernas estão me matando.
- Ah, seu velho rabugento, só sabe reclamar - a mulher retrucou friamente. - E vejo que essa demoniazinha imunda voltou a nossa casa não é?
- Ah mulher, cale-se. Já te expliquei a situação da nossa Ruby aqui, pode parar de implicar com ela?
- Vai Jack, defende ela, traga essas criaturas peçonhentas a nossa casa. Vai convidá-la para morar conosco para sempre agora é?
- Olha Lita - Ruby interviu antes que Jack pudesse responder - agora que Rupert chegou, não vai demorar muito e você vai estar livre de mim.
Lita só lançou um olhar de profundo desprezo a Ruby e voltou para o fogão. Eu percebi depois de um tempo que estávamos em uma cozinha.
- Moleque, mostre a casa para Holly. Faça algo de útil ao invés de só ficar aí se exibindo feito um pavão para Ruby. - Jack disse imperativamente a Rupert.
- Vamos - ele murmurou ao passar por mim.
- Podem deixar as malas aqui embaixo, depois a gente leva lá pra cima - Jack acrescentou por cima do ombro.
Rupert caminhava rapidamente pelos corredores, e eu tinha que quase correr para acompanhar seu passo. Ele subiu a escada que ficava perto da porta de entrada rapidamente e se dirigiu a um quarto no fim do corredor, aparentemente trancado.
- Esse é o quarto em que ninguém entra a menos que estaja acompanhado de Jack. Esse - e apontou para um quarto com a porta entreaberta a nossa esquerda - é o quarto que você vai ficar. Agora, suponha que estaja cansada, eu vou te dar um pouco de privacidade.
- Não. Eu quero conversar com você. - eu disse com firmeza. Ele suspirou com impaciência me lembrando o tratamento que ele dava a Jen, a garota burra da King's High School.
- Sobre o que você quer conversar?
- Por que você está agindo assim comigo?
- Sinceramente?
- Não, minta pra mim. Claro que sinceramente né.
- Eu cansei de você Holly, você e as suas bipolaridades, suas hipocrisisas, e suas fraquezas. Suas lamentações eternas sobre a sua "vida horrível". É isso. Minha obrigação era te trazer até Jack, agora você é o encargo dele. Agora se me dá licença, eu tenho negócio a tratar com a Ruby.
- Com um demônio? Eu achei que nós matassemos demônios.
- Você achou? Pois eu tenho uma novidade pra você garota, você não sabe de nada. Você é uma pessoa extremamente inútil no momento, e enquanto não aprender o que Jack tem a ensinar vai ser só um peso morto na equipe. Ruby, para seu conhecimento posterior, é importante para o que nós pretendemos fazer.
Suas palavras me machucaram de tal forma, que a única coisa que eu consegui fazer foi me virar com a maior dignidade que consegui reunir e entrar no quarto que ele havia me indicado. Eu não acreditava, ele me enganara. Não estava comigo em Londers porque gostava de mim, mas porque precisava me trazer para Jack. E ele sabia que eu jamais viria sozinha. Eu me senti traída, magoada, mas acima de tudo, ultrajada pela maneira com que Rupert falou comigo. Feriu-me tão fortemente ouví-lo, principalmente por saber que tudo aquilo era verdade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário