O vento frio do norte feria minha pele sensível, mas eu não iria parar. As palavras rudes de Rupert - que ainda ecoavam em meus ouvidos - me davam, de certa forma, forças pra continuar. A lembrança do nosso desentendimento me lembrava o porquê da minha súbita vontade de sair da casa que eu acabara de chegar. Por puro orgulho eu me obrigaria a ser a melhor caçadora que o mundo jamais vira, ia fazer todos os que duvidaram de mim engolirem suas palavras venenosas. Eu perguntara a Jack onde eu poderia tomar alguma coisa para me aquecer e ele respondera toscamente que tinha bastante bebida na casa e que não era necessário sair, mas lita - entendendo o desejo implícito em minhas palavras - me deu instruções para chegar a um bar chamado Harvelle's Roadhouse que não ficava longe.
- Muito obrigada Lita, muito obrigada mesmo! - eu agradecera fervorosamente.
- Tá tá, só não volte muito tarde sozinha, essas estradas podem ser perigosas para uma garota frágil como você. - ela dissera enquanto me levava até a porta - Sem ofensas - acrescentando com sua risada aguda.
E agora eu já podia ver as luzes do bar desejando mais do que nunca estar lá dentro. Um carro escuro parou ao meu lado me sobressaltando. "Droga, era só o que me faltava" pensei nervosa.
- Hey, você está indo pra onde? Não quer uma carona? Uma garota bonita assim não deveria andar sozinha por essas estradas... - disse uma voz rouca masculina.
- Eu sei me cuidar, obrigada - eu respondi friamente voltando a caminhar. O carro continuo me acompanhando.
- Ah, para né? Entra aí! - ele disse ligando a luz do carro e abrindo a porta. Eu suspirei me rendendo e entrei no carro. Estava tão quente lá dentro que eu me repreendi por não ter entrado antes. Eu me virei constrangida para ver o rosto do meu "salvador" e meu queixo quase caiu. Um cara com uns 22 anos, com a pele clara e o cabelo castanho, e os olhos verdes intensos me olhava com curiosidade. Seu rosto era de certa forma melífluo e com os traços suaves, mas uma taciturnidade de quem já vira muita coisa balanceava-o deixando o rapaz com uma beleza, de certa forma, exótica.
- Posso te perguntar o seu nome e destino?
- Holly, estou indo pro Harvelle's. E você? - perguntei tentando ser simpática.
- Dean, e por coicidência também esotou indo pra lá - ele disse indicando com a cabeça as luzes ao longe - Mas é um lugar estranho pra uma garota ir sozinha a essa hora. Quer dizer, você vai se encontrar com alguém lá? - acrescentou constrangido.
- Não, não, estou sozinha mesmo... - respondi me divertindo com seu contrangimento.
- Bom, somos dois. - ele disse sorrindo.
Eu retribui o sorriso. A pequena viagem foi curta e silenciosa, mas não foi desagradável. Quando saímos do carro Dean pigarreou e me lançou um olhar para que eu não prosseguisse.
- Eu... será que eu posso te pagar uma bebida?
- Ah... Claro - respondi surpresa com um sorriso tímido.
Caminhamos lado a lado e entramos no bar. Parecia um pouco os salões do velho oeste e uma banda de country tocava desafinada em um canto, mas até que era bem agradável. Nos sentamos no bar e durante a espera por atendimento o silêncio entre nós reinou. Uma garota loira mais ou menos da minha idade veio nos atender depois de uns 5 minutos de uma espera desconfortável.
- Hey hey Winchester, o que eu posso trazer pra você?
- Jo, tudo bem? A Ellen tá aqui?
- Não, ela saiu hoje cedo e ainda não voltou. Por que?
- Eu precisava falar com ela... Mas enquanto isso me traz uma cerveja. O que vai querer Holly?
- Uma dose de conhaque por favor - eu pedi quase sussurrando.
- Conhaque? Wow garota! - Dean comentou rindo assim que a garota foi buscar os nossos pedidos.
- Dean Winchester? Será que estou vendo direito? - exclamou uma voz terrivelmente conhecida. Dean se virou lentamente com uma expressão surpreso no rosto.
- Mayburn? Desgraçado, achei que estava pra lá do atlântico! É claro que sou eu! - Dean respondeu entusiasmado. Eu fiquei virada para o bar calada, constrangida demais para me virar.
- Estava, voltei hoje mesmo! Como está o John? E o Sam?
- Estão bem, estão todos bem. Quer dizer, papai está sumido, mas ele já entrou em contato e disse estar bem. E Jack? Continua ranzinza?
- Mas é claro, ainda mais agora que chegou a filha do Velho Bill.
- A filha do Velho Bill? Com quantos anos ela está?
- Acabou de fazer 18. Eu conheço esse olhar Dean, mas ela não é muito sociável não, vou logo avisando.
- Ah é? Eu discordo, sou bastante sociável. - eu me intrometi me virando para encarar Rupert.
- Holly? O que você faz aqui?
Eu peguei o conhaque no bar e o ergui para lhe mostrar o que eu estava fazendo ali. Dean observava a cena com uma expressão que mesclava admiração e espanto.
- Holly James, hã? - Dean comentou em voz baixa. Eu sorri e voltei minha atenção ao conhaque.
- Qual é garota, você veio até aqui beber conhaque? O que você quer provar com isso? - Rupert insistiu com a voz carregada de desprezo. Eu o ignorei.
- Olha aqui Mayburn, você pode ser meu amigo, conhecer a Holly aqui, e até ter algum problema pessoal com ela, mas ela é minha acompanhante essa noite e eu vou ter que pedir que você pare com essa merda.
- Parabéns Holly, conseguiu semear a discórdia entre dois amigos. - Rupert comentou sarcástico.
- Olha aqui Rupert, não sei o que eu fiz pra merecer todo esse desprezo, mas se você acha que eu vou ficar ouvindo tudo isso calada, você está muito enganado.
- Ah é? E o que você vai fazer? Chorar e se esconder nas saias da sua mãe?
Antes que eu pudesse entender o que eu estava fazendo, meu punho de fechou e atingiu o rosto perfeito de Rupert com uma força quase sobre humana. Ele caiu no chão, desacordado após ter batido a cabeça em uma mesa. Eu virei o copo de conhaque, tirei uma nota de 10 do bolso da jaqueta e coloquei no balcão, me desculpei apressada com Jo pela bagunça e sai rapidamente. Eu já estava fora do bar quando percebi que Dean estava me seguindo.
- Calma, calma. Por que tá correndo?
- Por que? Porque eu acabei de esmurrar o idiota do Rupert em um bar. Por isso eu estou correndo.
- Mas isso foi demais! Sério, onde aprendeu a bater daquele jeito?
- Não sei, foi instinto. - respondi sorrindo pelo canto da boca.
- Então, talvez você queira tomar alguma coisa em algum outro lugar. O céu é o limite.
- Eu até gostaria, mas eu não vou saber voltar pra casa do Jack de eu for mais longe do que isso...
- Eu te levo de volta, eu sei onde os Kimpler moram.
- Então me surpreenda. Me leve num lugar que você ache legal, sei lá... - respondi sorrindo.
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