Eram quase nove da manhã quando minha mãe entrou em meu quarto para me acordar.
- Bom dia querida! Rupert me contou os planos de vocês para hoje, então achei melhor vir acordá-la.
- Ah, ok mãe - respondi sonolenta.
- Aliás, acho excelente que você já esteja arrumando amigos por aqui - acrescentou ela sorridente.
Eu assenti com um leve sorriso, enquanto procurava um prendedor de cabelo. Minha mãe saiu do quarto me dando um pouco de privacidade.
- Que diabos de roupa eu vou vestir? - falei sozinha enquanto abria a mala.
Depois de um tempo tentando achar uma roupa, eu me conformei com a minha velha calça jeans rasgada, uma camiseta de manga comprida e uma jaqueta de couro, que era o meu xodó. Peguei minhas coisas e fui em direção ao banheiro. O banheiro da pousada era pequeno, e eu tive que me espremer entre os várioas armários para conseguir ligar o secador de cabelo. E eu precisava mesmo secar o cabelo, porque sair de cabelo molhado em Londres, era o mesmo que pedir para ficar doente. Eu fiquei pronta as nove e meia, com os meus cabelos curtos presos em um rabo de cabalo.
Sentei em uma das mesas da sala com um prato de ovos mexidos e bacon, esperando que Rupert desse sinal de vida. Eram exatamente dez horas quando a porta da pousada abriu, e Rupert entrou ofegante de frio. Eu sorri pra ele, e seu sorriso em resposta veio quase imediatamente.
- Holly! - ele comprimentou acenando para mim enquanto pendurava o sobretudo nos cabides - Receio que os nossos planos para hoje tenham que ser remarcados, pois a neve está quase chegando aos meus joelhos! - e apontou para os pés, enxarcados.
- Ah, mas eu já estava pronta... - respondi fechando a cara. Ele sorriu e veio se sentar ao meu lado.
- E você ia só com essa jaqueta? Não esquece que aqui tem aquecedor. Lá fora deve estar uns 15º negativos. - e riu. Eu dei língua.
Sua beleza era ainda mais magnífica no frio, quando suas bochechas enrubreciam, e o cabelo úmido caia delicadamente sobre o rosto ligando-se assim, aos longos cílios negros.
- Se você não se importar, nós poderíamos ficar aqui na pousada mesmo, tocando guitarra ou qualquer outra coisa que você queira fazer - ele propôs ainda sorrindo pra mim.
- Na verdade, já que você vai furar comigo, eu acho que vou terminar de arrumar minhas malas, essas coisas. - eu respondi dando de ombros, fazendo com que sua expressão desmanchasse rapidamente - É claro que você está convidado a embarcar nessa missão - acrescentei com um pequeno sorriso - eu acrescentei com um pequeno sorriso - Eu até deixo você tocar minha guitarra.
- Você não fica preocupada de ficar fechada em um quarto com um cara que você acabou de conhecer? - me questionou com um sorriso malicioso.
- Na verdade... - comecei, mas ele me interrompeu.
- Brincadeira, juro que sou inofensivo - ele disse rindo.
- Ok, promete que não vai me matar, roubar ou estuprar? - brinquei.
- Matar definitivamente não, nem estuprar. Roubar... hmm, depende de que guitarra estamos falando. - ele respondeu. Eu ri.
- Enfim, contanto que você não me mate ou estupre, acho que não me incomodo em ficar fechada no meu quarto com você. - eu disse me levantando.
Ele me seguiu, entrou no quarto atrás de mim e sem cerimônia alguma, sentou na minha cama. Seus olhos esquadrinhavam tudo no ambiente, e pareciam estar absorvendo cada detalhe do lugar. Seu olhar se demorou no porta-retrato que eu colocara no criado-mudo na noite anterior. Mostrava um jovem com cabelos escuros caindo sobre parte de seu rosto em uma franja repicada, abraçado a uma garota com cabelos castanho-avermelhado preso em um coque mal-feito. Eu e meu irmão, Vince. Não éramos irmãos de sangue, ele na verdade era meu amigo, e como ele ficou orfão muito cedo, minha mãe meio que o ''adotou''.
- Namorado? - ele arriscou.
- Amigo, quase irmão. Ele deve estar chegando a Londres depois do natal, talvez para a festa de Ano Novo. - respondi soltando meu cabelo lentamente. Percebi que Rupert me olhava, e contrangida me virei pra ele.
- Que foi?
- Nada, nada.
Eu dei de ombros e peguei minha guitarra. Fui caminhando com a guitarra em direção a Rupert.
- Toma, cuida dela, porque como eu vou mexer no ármario, ela pode cair - disse ao me sentar ao seu lado e entregar o case a ele.
- Calma, vamos conversar um pouco antes de você começar seu trabalho - ele propôs gentilmente depois de pegar a guitarra.
- Como quiser... Sobre o que quer falar?
- Hmm, você! Por que se mudou para Londres?
- O último namorado da minha mãe era meio louco e ficava persegiundo ela depois que levou o fora, e isso me dava nos nervos. Então minha mãe se demitiu e resolveu que Londres era um bom lugar pra se morar.
- Mas você não queria vir?
- Bom, querer, eu até queria, mas não queria ter que deixar minha vida pra trás.
Ele ficou me olhando com uma expressão indecifrável, até que o barulho do celular dele chamou sua atenção.
- Acho que eu tenho que ir... - ele resmungou olhando o celular - me desculpe Holly, mesmo! - mas eu fiquei tão chateada com a repentina rejeição, que meramente assenti.
- Amanhã eu te levo na escola e tudo mais está bem? Me desculpe mesmo - repetiu angustiado. Suas mãos quentes tocaram meu rosto, e quando levantei o olhar, só tive tempo de sentir seus lábios em minha testa e ele já saía rapidamente do quarto, fechando a porta ao passar.
Fiquei olhando para a porta fechada por um tempo até me conformar que eu estava sozinha. Me deitei na cama e simplesmente dormi.
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